22.8.09

I is for I'm back

Voltei, voltei, voltei de lá, ainda agora estava em França e agora já estou cá, como cantava o outro, não sei se o Bonga se o Pequeno Saúl, o miúdo mais irritantemente parecido com o Crazy Frog que imaginar se possa.

Whatever, que isso para aqui não interessa nada, como diria a Amiga Olga. O que interessa que é voltei. Voltei, enquanto Sócrates bisbilhota Cavaco, uns pândegos trocam cobardemente umas bandeiras à chucha calada e a Maya se descasca nos escaparates (revelando-nos sem piedade quase todas as cartas, à excepção dos trunfos, os pés de galinha e as mamas novas, siliconadas*) - tudo eventos certamente relacionados, senão a nível cósmico, pelo menos a nível cómico.




* para uma revisão da minha opinião sobre a coisa, ler aqui.

3.3.09

P is for patience, my dear friends

Não é que tenha desistido, é mesmo porque estou sem tempo para escrever. 

Em todo o caso, prometo-vos que, hoje ou amanhã, terão por aqui a história da minha número 3, também conhecida como a mulher que ejaculava (honest to God).

25.2.09

B is for blessed censorship

A grande vantagem do caso da dita censura de Braga, é que agora qualquer blogger se sente respaldado/a para postar no seu blogue uma cona sem que daí lhe caiam os parentes na lama. Basta culpar a PSP e alardear alguma mundividência liberal.

Isto, claro, dando de barato que a argumentação

- ah, isto pornografia? qual quê, é um quadro famoso do Courbert, uma verdadeira obra de arte

é chachada. Aquilo não é uma obra de arte. É uma figuração realista de uma cona, uma figuração feita com muita arte, numa altura em que a fotografia ainda não se tinha tornado naquilo que veio a ser e que depois deixou de ser, aos olhos dos artistas - o registo da realidade.

Já a pornografia, está nos olhos de quem vê.

23.2.09

F is for fucking oblivion - the #2 fuck


Duas semanas após a entrada na gloriosa vida sexuada, eis que deixo o doce remanso da vida civil e entro na cavalgada heróica daqueles a quem é suposto dar sangue pela pátria, numa hemorragia de séculos que, passando pelo Roussilhão, Tocantins e Goa, dura desde a cava de Viriato até às bolanhas da Guiné Bissau.

Ora, a vida castreja em Vale do Zebro implicava no meu tempo (na altura em que a tropa ainda era um clube menina não entra) uma série de miúdos pós-adolescentes e pré-adultos reunidos debaixo de um mesmo tecto, privados de intimidade, de sono, de descanso e de comida em quantidade e qualidade organoléptica minimamente razoável.

Em compensação, a Marinha fornecia copiosa e abundantemente lodo, marchas forçadas, frio de rachar, palhaçada homoerótica

- sua amélia, paneleiro do caralho, mexa-me esse cu, faça de conta que tem uma piça lá dentro, sua amélia do caralho!

humidade a rodos e exercício físico que faria empalidecer de vergonha qualquer freak do Holmes Place. Todo e qualquer pretexto era bom para exercitar os bíceps

- o sol vai nascer, suas amélias do caralho, 100 flexões!

os glúteos

- 20 segundos atrasado, sua amélia. 100 cangurus para toda a gente!

e os gémeos

- foda-se, caralho, que bando de amélias que vocês me saíram! dêem-me já 100 pulos de galo!

e a malta toda a desunhar-se para acertar o passo nos exercícios de ordem unida, a memorizar as menmónicas para os toques de clarim, para o ombro-arma

- eh-pá-põe-me-essa-merda-no-ombro... já!

e para o apresentar-arma

- ena-cumcaralho.. já!

tudo meros ensaios, tímidos até, para a the real thing, o verdadeiro terror que era o Passeio dos Alegres de todas as quartas-feiras, com os altifalantes a debitar roufenhamente marchas marciais que quase que poderia jurar nazis, o vice-almirante a bater com o pingalim ao som da muito provável Flieg, deutsche Fahne, flieg, os pés trocados a pedir tantos pulos de galo e tantos cangurus quanto os necessários para deixar um pelotão inteiro de baixa médica durante 15 dias.

Belos e heróicos tempos esses, em que as amélias se transfiguravam - ou procuravam transfigurar-se - em homens emperdernidos, de barba rija, exemplares tesos dos personagens do Jean Lartéguy, homens capazes de desmontar uma G3 no escuro

- esta G3 é a sua namorada, sua amélia, vai dormir com ela, comer com ela, vai cagar com ela, não a vai largar nunca, ai de si se se separar dela por mais que dois metros, eu que sonhe!

a testosterona a comer-se às colheradas, a virilidade a medir-se pelo número de flexões que se fazia, pelos murros que se conseguiam dar nos outros e se almejava evitar receber, a masculinidade a medir-se, enfim, pela quantidade de álcool que se emborcava sem que ficassemos definitivamente toldados.

Foi na tropa que aprendi a beber. Eu, que com duas cervejas ficava entornado, passei a deter a capacidade de me habituar a beber um quarto de garrafa de extracto de absinto e a ficar (quase) que o mesmo, a virar meia garrafa de gin e a permanecer (quase que) incólume, a deitar abaixo uma grade de cerveja e a não ser (praticamente) nada. Ora, como toda a gente sabe, quando se alia juventude e álcool, um tipo passa a ser invulnerável a tudo - entre outras coisas, à morte, à timidez e à vergonha.

E foi assim que, numa uma bela noite de santos populares, eu e um camarada da guerra nos achámos numas festas quaisquer, de uma terreola qualquer, nas cercanias do campo militar, completamente conspícuos nos nossos pentes-zero, a carteira a arvorar mais preservativos que dinheiro, só para o estilo, o peito feito às miúdas e a boca virada para as garrafas.

Ora, muito raramente alguma daquelas gajas autóctones - mais que habituadas, ano sim, ano sim, à magalada que descia em magote do campo e que se passeava, ufana e galariça, pelo terreiro das festas - cedia. E, se calhava a ceder, era sempre quando o militar era garboso e giro, de piropo fácil e possuía inegáveis dotes de dançarino, fruto de infindáveis bailes na santa terrinha, capaz de fazer voltear com denodo e pujança a escolhida ao som do Toy ou do Emanuel. Quando acontecia, era um caso em mil.

E o meu caso - um gajo absolutamente nada dançarino, de estatura meã e incapaz de qualquer tipo de piropo, romântico ou ordinário que fosse - enquadrava-se sempre nos restantes 999. Sempre? Não, nem sempre. O sempre acabou nesse dia, no dia em que o conteúdo de uma garrafa de White Satin (um gin floral, a saber a Harpic, que passei a abominar desde então) abandonou o vidro e encontrou o meu estômago. Até à metade, a coisa correu bem.

A partir daí, recordo vagamente o emborcar alarve do que restava no fundo e o atirar da garrafa para um contentor. Recordo igualmente que elas eram duas, uma para mim, acho que a morena, a outra, de cabelo de cor indefinível, para o outro tipo. Recordo ainda menos uns amassos por detrás de um muro e o deitar no chão arenoso, onde a foda fungível da praxe se cumpriu. Foi bom? Não faço ideia. A fulana era gira? Não me recordo. Era boazona, ao menos? Um branco total.

Lá diz o velho ditado castrense que em tempo de guerra não se limpam armas. No meu caso, não só não se limparam, como se deixaram enferrujar até à medula. Deve ter sido um dos piores sentimentos que experimentei até hoje, o da foda alienada, inconsequente e incoerente - jurei para nunca mais. Acho também que esta foda número dois foi a minha única one night stand.

Pena, realmente, não me lembrar de qualquer pormenor.


14.2.09

G is for getting my cherry popped part #3 and final


Matemos então a descrição da minha primeira vez e continuemos onde parámos da última vez que aqui referimos o assunto.

Do alto da sua experiência de recém-dervirginada e na expectativa de desflorar um patinho tenrinho, a Patrícia tinha tudo sob controlo: da minha parte, a minha excitação, a antecipação, a vontade e a disponibilidade; da parte dela, a pílula tomada – afinal, como dizia, e bem, o Ubaldo Ribeiro, a primeira vez tem que ser bem regada, senão não é primeira vez coisa nenhuma.

Restava a velha questão da falta de espaço apropriado. Não havendo casa amiga a que recorrer, optámos pela retirada estratégica para a praia. Vista à distância destes anos todos, a solução da praia era realmente uma solução merdosa – estávamos quase em pleno solstício de Dezembro, chovia que Deus a dava, fazia um frio polar e a praia que tinhamos em mente e à mão de semear tinha sempre, mesmo sob temporal, gente a entrar e a sair dela. Mas adiante, deixemos a conversa do tempo merdoso, que esta minha primeira vez decorreu em dois actos, um primeiro falhado e um segundo quase que falhado.

Recordo-me que o primeiro episódio desta verdadeira ópera bufa se deu num sábado em que o tempo se acalmou e se abriu todo ele em radiantes reverberações solares, polvilhadas aqui e ali por ameaçadores cumulonimbus. Depois de uma intensa sessão de preliminares, facilitada por uma saia rodada e umas cuecas finissimas, quase que proto-fio dental, ela guiou-me por entre os rochedos costeiros, abrigando-nos por entre duas fragas. Ora bem, chegara o dia Dê, e o Natal e o Vi day, tudo junto, pensei eu.
E assim parecia, realmente.

À luz crua e branca do sol de inverno, ela encostou-se a uma rocha e como que se deitou para trás. Fechou os olhos e eu, com tudo à minha disposição e vontade, aproveitei e avancei ao reconhecimento. Lancei-lhe as mãos às saias e subi-lhas, enrodilhando-lhe tudo à volta da cintura. A tremer, a pensar que dali a bem pouco saberia como era, realmente, entrar numa mulher, afastei-lhe o triângulo de pano e expus o triângulo de pêlo e a lambugem de dois lábios tumefactos. Num gesto que de há um mês até então a prática tornara expedito e ágil, separei-lhe os gomos do sexo e expus-lhe a labia interior ao meu olhar. Com a outra mão, abri a braguilha e puxei-me para fora, acercando-me dela. E foi nesse momento, em que eu todo latejava e ela toda palpitava, foi nesse preciso momento dizia eu que, por cima de nós e invisível por detrás das falésias, mas aproximando-se, soou um charivari de vozes e risos.

Em pânico – mais eu que ela, que ela nestas coisas de arremedos de penetrações, voyeurs e masturbações em público mantinha quase sempre a sua esfíngica postura – compusemo-nos como pudemos e assobiámos para o lado, a fingir que andávamos ao caranguejo ou à lambujinha. E o que era que se aproximava? Uma companha completa de aderecistas, produtores, fotógrafos e modelos da Loja das Meias que certamente tinha resolvido aproveitar a luz que surgira inopinadamente para ultimar uma qualquer photo shoot.

Damn! A coxear de tesão, lá fui atrás dela, cada um para sua casa. Melhores dias haveriam de vir, pensei. E assim foi, novamente, a surgir, pós-natalícia, a noite de 27 de Dezembro – noite que nada tem de especial a não ser o facto de ocorrer dois dias após o Natal e de ter sido a noite em que, finalmente, deixei para trás o estatuto de puto virgem e imberbe (mais o de virgem que o de imberbe), noite que ocorreu de supetão, o corolário de uma tarde especialmente entesoante em que, inebriado de sexo até aos punhos e a pedir alívio rápido e indolor, soltei o meu grito do Ipiranga e decidi que daquela noite não passava.

Infelizmente, a Patrícia não fora preparada para tal declaração de livre arbítrio. Vestida para o frio glacial ártico que se fazia sentir naquela noite, ia com uns collants blindados que me consumiram uns bons vinte minutos a despir e a desenrolar. E agora, finalmente, como sempre fora desde a noite dos tempos, eis que havia um macho entre as pernas de uma fêmea em decúbito dorsal. E eis que ele segurava no sexo impaciente e o guiava para algures em direcção àquela mulher.

Mas eis que um nóvel problema que se colocava então, senhoras e senhores. E o problema era a localização precisa e exacta desse algures – é que se nós, homens, podemos ver filmes porno ad nauseam, se podemos analisar com olho crítico e forense toda e qualquer foto de penetração que vislumbrar consigamos, se podemos até ler sobre o assunto da conexão humana em mil e um tratados anatómicos, não podemos nunca estar minimamente preparados para a hora da verdade, a altura em que o res, non verba se impõe.

É que, confessemos, no meio de tanta labia, de tanto festo e refego, de tanta carne mole, aderente e oclusa, um tipo dar com uma abertura diabolicamente inclinada contra natura não é nada fácil.

E, naquela noite, não foi mesmo nada fácil. Suores frios e antevisões de um inferno de impotência feito atormentaram-me imediatamente, assim que o meu membro cego contactou com a sua pele e marrou irremediavelmente contra uma qualquer parcela de carne e pêlos, definitivamente epidérmica e nada mucósica. A mão que me guiava tentou então, em desespero de causa, apalpar terreno, os dedos livres a tactear acima, abaixo, dos lados, à procura de qualquer vislumbre de orifício por onde me encaixar.

Debalde. Enquanto a mente se ocupava num multitasking infernal – olhar em roda a ver se viria algum mirone ao nosso encontro, soerguer-me num braço e numa mão e segurar com a outra a pila agora ensandecida e confusa, olhar para a Patrícia e detectar a mais leve expressão que indicasse enfado, desagrado ou mofina, tudo isto enquanto sublimava a chuvinha que caía agora e o enregelar do rabo com a salsugem e o rocio do mar – o pânico começou a tomar conta de mim.

- Como é que isto se faz? Porra, porra, onde é que isto se enfia?

E claro, sendo o pânico um mau conselheiro, as coisas só poderiam piorar. Julgando ter finalmente encontrado uma rampa de lançamento – juro que os meus dedos creram ter sondado as suas profundezas – encaixei-me e empurrei-me, com força viril, para baixo e para dentro.

Infelizmente, aquilo que julgara ser a sua íntima conduta mais não era do que a comissura dos grandes lábios. Resultado: aterrei de glande em cheio na areia fina da praia. Mil vezes porra! Não é que me tivesse doído, mas sentia com os dedos a ponta do sexo como se fosse um brigadeiro acabado de fazer: a escaldar, mas cheia de vermicelli por todo o lado. O pior é que o vermicelli era de areia e não de chocolate.

- Ok. Don't panic. Pensa. Abortamos tudo? Continuamos em frente e seja o que Deus quiser?

E foi o que Deus quis. Com areia e tudo. Talvez até tenha ajudado, a dar tracção ou isso, porque à segunda tentativa entrei finalmente. E, curiosamente, dei por mim a pensar que a sensação, apesar de muitíssimo agradável, não era tão intensa como levara centenas de noites a imaginar.

Talvez fosse da areia. Deus lá saberá. Ela, pelo menos, não se queixou.

11.2.09

B is for matador (muff) diving part #3

A primeira vez que o enfrentamos, para o provar, é como nas touradas. Nós, indefesos, de dedos nas ilhargas, a mirar o animal, a tentar apurar as suas manhas e os seus defeitos, a julgá-lo pela maneira como se mexe, como se refugia à fé púnica em tábuas ou, como pelo contrário, tem recorrido longo e procura saleroso o centro da arena.

Ora bem, eis-nos frente a frente com o bicho. Como é animal que se quer manter vazio, não vamos ter faena de muleta no final. Melhor, nada de meritórios muletazos - o que nos deixa a mente e o tempo livres para nos dedicarmos a uma prolongada e extremosa sorte de bandarilhas, a modos que a querer marcar-lhe a pelagem para o resto da vida. 

Com um afarolado de joelhos, poder a poder, olhamo-nos, eu e o sexo que, encharcado, me enfrenta, entre o expectante e o receoso. Como a sorte só vale se o bandarilheiro mandar, abro-me de capa, paternal mas autoritário e cito o corpo que se abre à minha frente. 

Primeiro as mãos. E os dedos, especialmente os dedos. Não se pode nunca entrar recto à cara do bicho. Tal como o matador não começa a lide matando o touro, assim quem mineta não pode começar pelo óbvio. E o óbvio é o clitóris, esse apêndice que é melhor deixar para o fim, quando tudo o mais tiver sido excitado e preparado para o que há-de vir. 

Assim sendo iniciemos a função pelas cortesias. Cumprimentemos os pés. Massajemo-los. Acariciemo-los. Subamos, com dedos e boca e lábios e língua pelos pés acima e passemos à perna. Lidemos ao engano e voltemos atrás, aos pés. Novamente os dedos, a desenhar na pele navarras, rematadas com uma serpentina. Subo. Subo mais ainda, as pernas do touro distendem-se pelos curvilhões, pedem capote. Toco-a. Toco-o, os meus dedos palpos de aranha, bandarilhas leves e ágeis que ora estão aqui, ora estão ali, a marcar, a tatuar para sempre o meu nome na pele elástica e fremente. E a boca que vem atrás, a confirmar a pressão dos dedos, o arrepio das impressões digitais a ser substituído pelas chicuelinas da língua, animal e bandarilheiro inebriados os dois um do outro, o mundo é só arena agora, arena e sol e sombra e a multidão que solta olés a cada verónica dos meus lábios.

E a boca faz contacto lá, quase lá, é ao lado, de lado, por baixo, rés vés, nada óbvia e há um dedo que separa e entra e se imiscui, coleante, e aperta agora em cima, pressiona a carne, por dentro, de encontro à minha boca, por fora, procura agora o sexo desembolado, a sua topografia sabida na ponta da língua, outro dedo que entra agora, toco lá, uma, duas vezes, toca-e-foge tantalizante, o touro trapio, soam olés na praça ensandecida, benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui, toda ela bravura, toda ela prenhe de casta, cheia de mobilidade, só força, descolo a boca, respiro para cima do bicho, eis um dedo que entra mais, mais afoito, por ela adentro, penetra com cuidado o o fóramen central do hímen, ela retesa-se de medo e lúxuria, o bandarilheiro manda, manda a boca do bandarilheiro, todo ele língua e dedos, agora suga, lambe, afaga, manipula, conduz a montada com a ponta dos dedos, bebe dela a mínima reacção, para cada reacção opõe uma acção, pensa que o povo tem muita razão

- quem monta a besta é que sabe o cómodo que ela lhe dá

cavalga-lhe o prazer que vem a galope, excita-se com o galope do seu prazer, a estocada final, a boca que pressiona o sexo de encontro aos dedos que pressionam por dentro, a mulher um bicho empalado, a estrebuchar no estertor do orgasmo, brutal, mortífero, o bandarilheiro a cravar-lhe o espeque que para sempre será a bitola pelo o qual se terão que comparar todos os outros bandarilheiros que se lhe seguirão, olé, rabo e orelha, olé, saída triunfal pela porta monumental, olé, que venha o traje de luces. Olé!


8.2.09

A is for award

Obrigado, Elisabeth.

7.2.09

V is for virgin pussy (muff) diving part #2


A Cláudia entrou na mesma carruagem que eu, em Marvão – o que não foi difícil tendo em conta que o comboio era apenas máquina e carruagem. Na altura, sobrecarregado com a parafernália toda do montanhismo - os cabos dinâmicos e estáticos, os grigris, os mosquetões, os oitos do rappel – nem olhei bem para ela. Acho que foi só por alturas da Torre das Vargens ou, quiçá, de Ponte de Sor, que cruzámos olhares.

Basicamente, a Cláudia era uma pita. Uma pita gira, de cabelos compridos e lisos, olhos amendoados e escuros - mas pita. Tudo nela gritava pita – o rosto, jovem demais para a idade (18 anos, quase 19, viria a saber mais tarde), a calça largueirona em baixo e justa em cima, com a cintura descaída a mostrar o umbigo, os ténis surrados, um daqueles pregos espetado numa orelha, um top ou lá o que era aquilo (não percebo nada de roupa) justo, uma camisola larga, um casaco e uma mochila da McKinley.

Ora, nem toda a gente anda com uma mochila McKinley, coisa que se justificou quando fizemos o transbordo em Abrantes e ela se ofereceu para me ajudar a levar a tralha com um

- também faço escalada.

E foi assim que matámos a viagem e os inúmeros apeadeiros, a confabular sobre vias, desníveis, cordadas e técnicas de progressão (mais tarde haveria de constatar contérrito que, para além da escalada, não tínhamos absolutamente nada em comum; nem a linguagem, nem os livros que líamos, nem o código do vestuário, nem um grupo musical que se visse - eu fossilizara nos Doors e nos Dire Straits, ela era mais merdas do género Lamb, Black Eyed Peas, Miss Elliot, Justin Timberlake, Coldplay e Maroon 5).

Aliciado apenas pelo seu conhecimento da serra de São Mamede (juro), trocámos emails e telemóveis e despedimo-nos em Santa Apolónia. Passada uma semana, mais dia menos dia, recebo um mail simpático, com duas ou três amabilidades, a que respondi com outras duas ou três palavras inócuas, relembrando-a que um dia haveria de a contactar para saber coisas em concreto sobre uma determinada via da Serra Fria.

Bom, uma coisa levou a outra e os mails sucederam-se. Em dois meses fiquei a saber da vida da Cláudia de dentro para fora e de fora para dentro. Não que houvesse muito que saber, claro: caloira de Bioquímica em Lisboa, os pais e uma irmã mais velha no interior profundo, a morar sozinha numa casa da família em Belém, os infrequentes amores da juventude e pouco mais.

Durante esses dois meses a coisa evoluiu de tal modo que eu - que não sou nada do tipo de pensar que old enough to bleed, old enough to breed e que não gosto das minhas mulheres imberbes - acabei por ceder ao misto de adoração, gargalhada fácil, fascínio e sedução núbil e desajeitada que a Cláudia irradiava como um farol oceânico na minha direcção. Ao segundo dia ensoado de praia tínhamo-nos beijado, no café seguinte sucumbíramos ao derriço e, a partir do segundo cinema, estávamos oficialmente em contubérnio.

Ora, deixando de parte as coisas mais sérias desta relação – o incómodo da disparidade de idades, quase o dobro, que sempre pendeu entre nós, as suas imaturidades e a minha impaciência para as aturar, etc. – vamos ao que interessa: a Cláudia era virgem, facto que alardeava com algum orgulho e embaraço desde quase que o primeiro dia em que nos víramos.

E se virgem era, virgem continuou (daí não lhe ter sido atribuído o costumeiro número do Diabo):

primo, porque não me apeteceu manipulá-la (literal e cerebralmente falando) até ao desfloramento e;

- secundo, porque nessas merdas eu ainda sou, basicamente, o último dos herdeiros do Sturm und Drang, o gajo vestido à romântico do século XIX que, perante a erecção inopinada que surge ao primeiro beijo, logo declama e infame sou, porque te quero; e tanto/ que de mim tenho espanto/ de ti medo e terror.../ mas amar!... não te amo, não.

Logo, escoaram-se semanas em que as noites eram única e exclusivamente ocupadas em meles de boca – um refrigério para quem, como eu, passara a década passada a foder que nem um castor. Desnudá-la, nem pensar nisso, que ela não deixava e metia-se nas encospas (sabia-se fraca). O mais que havia era acesso ao peito.

Peito, que digo eu? Peito, não. Seios – aqui o termo é mais do que justamente empregue. Eram positivamente os seios mais bonitos que vi, manuseei (e fotografei) até hoje. Dois hemisférios perfeitos, a explodir de tónus e firmeza – recordo-os ainda agora com emoção, a pura reencarnação dos da Vénus Anadyomene de Ticiano.

Portanto, seios e boca, era a isso que eu me resignava - apesar de por vezes, se suficientemente excitada, ela se deixar ir no embalo e se esquecer de me retirar atempadamente a mão de dentro das suas calças. Logo, a bem dizer, era seios, boca e algum, pouco, do aparentemente farto pêlo púbico que eventualmente podia gazofilar.

Até que um dia, deitados na sua cama e na exacta véspera de partir para o outro lado do mundo - de onde só voltaria passados dois meses - a combinação de excitação, tesão, saudade por antecipação, confiança em mim e a vontade de me dar um presente de despedida inesquecível a levou, por fim, a deixar a resistência activa e a oferecer-me apenas uma oposição passiva, a necessária para que pudesse salvar a face, no caso das coisas correrem para o torto.

Surpreso pelo volte face, despi-lhe as calças e depois a cueca salvanda que pousei delicadamente na mesa de cabeceira como se fosse uma peça de relojoaria cara e dispendiosa. Reclinada, olhava-me com um olhar pesado, solene. Afastei-lhe então, devagarinho as pernas, fazendo avançar a minha mão por entre elas acima. Um último momento de hesitação e ela abre-se totalmente à minha vista.

E, lo and behold!, a meus olhos surge a cona mais pré-rafaelita que me fora dado a ver até então – perdoem-me a crueza do vocábulo (sim, eu sei que já discutimos isto aqui passim) mas não poderia deixar de lhe dar outro termo dado o visível grau de excitação em que se encontrava aquele sexo entunicado e virgem que eu iria agora delibar pela primeira vez.


continua

6.2.09

M is for muff diving part #1

Se existe um terreno sagrado por excelência, que simboliza todos os outros terrenos e sintetiza a ideia de existência, vida e morte, esse é o espaço acidentado da vulva de uma mulher


Exceptuando os casos raros da fertilização in vitro (aviso à navegação, o latim entesa-me e hoje vou abusar dele, habituem-se, portanto, como diria o outro) ou da cesariana (que, até ao século XIX, era feita quase que exclusivamente em mulheres mortas ou moribundas, emulando o mito original de Esculápio) a vulva sempre foi porta exclusiva e única.

Porta de entrada da semente masculina e porta de saída da nova vida, garante da perpetuação da espécie, esse milagre em ritmo shark frenzy que é a reprodução sexuada, tão bem descrito por Thornhill e Palmer (vidé epigrafe deste blogue).

Benedictum fructum ventris tui - assim oram os católicos e assim murmuram todos os homens crentes e não crentes em extática contemplação vulvar. Todos?

Não, todos não. Nem todos.

Para além do grupo óbvio dos homens gay - que é mais pilas - aparentemente há alguns homens que não gostam do ventre das mulheres nem dos seus apetrechos anatómicos mais exteriores, como se na sua entrada houvesse o proverbial cave cunnus. Ainda aparentemente (e sei isto de o ouvir dizer ou de algumas mulheres assim me o terem contado) há homens que, perante a perspectiva de comungarem do corpo feminino, das duas, uma: ou invectivam logo um abrenúncio e invocam um ad nutum ou fazem-lhe o frete, com enfado e um vamos lá a despachar esta merda que a seguir é a minha vez.

O que não se compreende, pelo menos visto daqui da minha muito pessoal opinião. Afinal, em quase toda a classe vulvar - em que, se algumas são tão perfeitas, puras e simples como uma nossa senhora, outras parecem uma incerta planta carnívora desalinhada - reside a perfeição fractal da Natureza, a matemática bayesiana da simetria, a ordem do belo e da estética excitante (reparem que disse em "quase toda" - é que, mutatis mutandis, se a grande maioria das mulheres porta entre pernas o equivalente anatómico à Capela Sistina, outras há que detêm algo parecido com os projectos que o Sócrates alega ter desenhado para Unhais de Baixo e Couratos de Cima).

É esta dualidade de critérios, a sacralidade e a fractalidade, que explica o meu fascínio por elas - e, ipso facto, que vaginas de plástico ou de silicone nada me digam como hipótese cómoda e maneirinha de substituição da real Mckoy, de carne, pregas e até defeitos feita, pelo sucedâneo artificial à venda numa sex shop perto de mim ou ao alcance do cartão de crédito numa qualquer loja online. Bom, mas vamos ao que interessa, vamos ao presigo deste texto: o cunnilingus e o seu (meu, pelo menos) modus operandi.

Como acima ficou dito, há que gostar de vulva. Neste caso, e a contrario sensu, melhor do que ter um profissional, é ter um amador, um homem que não só reverencie a vulva em toda a sua variegada morfologia como, especial e particularmente, venere aquela vulva, a que está em custódia à sua frente, ao alcance da visão, do toque e do gosto.

Em primeiro lugar, há que se certificar que estejam presentes alguma condições sine qua non, .s.s.

- espaço amplo, iluminado q.b., confortável, quente, sem distracções exteriores (por exemplo, a TV, uma manifestação da CGTP, janelas a dar para o rio e para os paquetes que passam, um deputado dos Verdes, etc.) e com uma porta que se possa fechar (pormenor muito importante);

- uma vulva, depilada nos grandes lábios, para melhor falta de aderência e melhor localização do ponto cê;

- um homem, de preferência com a face bem escanhoada, sem tesões urgentes para resolver (isto é, se estão a pensar em aplicar uma variante prolongada da manobra de valsava àquela senhora que acabaram de conhecer e da qual vocês ainda não sabem muito todos os mistérios, de como grita e por quê, de quem chama no momento do delíquio ou quais as manobras que consegue fazer em vocês com uma língua e cinco dedos - esqueçam, it's too early for good muff diving).

O resto - o verdadeiro modus operandi - fica para esta noite.

3.2.09

W is for what's in a name?


what's in a name? that which we call a rose
by any other name would smell as sweet.



Abri-lhe as pernas com denodo e ela gemeu alto, em antecipação. Os dados estavam lançados e havia agora que prosseguir sem medos nem pruridos, direito ao assunto, sem circunlóquios, a boca em solilóquio com o mons venus da minha número dezanove que movimentava agora as ancas enérgica e ritmadamente, a pedir sem palavras o óbvio.

Sem palavras? Não, caro leitor, escrevi eu cedo de mais e leram vocês quatro linhas acima daquilo que então aconteceu. E o que aconteceu foi isto: assim que a minha boca lhe tocou, ela sai-se com esta:

- anda, anda, lambe-me a ratinha!

Ratinha? travei eu, logo imagens de ratazanas nojentas, daquelas que andam pelas margens do Tejo, em Porto Brandão ou no Beato, a povoarem-me o cérebro, o pêlo hirsuto e oleoso, o rabo escaludo e grosso que nem um cabo submarino, a varrer com esmero os dejectos que entopem, como ateromas, os canos dos esgotos que desaguam no rio.

- Ratinha? Quéstamerda, já chegou o Entrudo?

É que se há coisa que me causa impotência são estes nomes que as pessoas arranjam para evitar chamar as conas e os caralhos pelos nomes. Já ouvi de tudo, desde a pessoalização da coisa:

- dá-mo nela

que me deixa logo a pensar na prima Nelinha, até às que a baptizam com o seu próprio nome:

- mexe-me na Carlinha, mexes?

sempre em diminuitivozinho, a Patríciazinha para aqui, a Gabrielazinha para acoli, parece que estamos numa creche. E depois, depois claro, há as infantilizações: a rachinha, a pipoca, o pipi, a pombinha e, a mais aleivosa de todas, a coninha.

Chamar coninha a uma cona é como chamar bombazinha nuclear a um bomba H daquelas capazes de vaporizar uma província inteira, é como dizer homenzinho quando se está perante o Tarzan Taborda, é chamar bichaninho a um tigre da Malásia com 25o quilos de peso.

Imaginemos os romanos, esse grande povo da Antiguidade, responsável pela introdução do vocábulo cunnus na nossa língua. Imaginemos a romana anónima que um dia grafitou há mais de dois mil anos atrás nas paredes do porto de Óstia o imperativo Livius me cunus lincet - Lívio, lambe-me a cona. Isto sim, é de mulher, de gaja que sabia bem o que queria do Lívio - esta mulher não era, definitivamente, uma coninhas.

Já a mulher hodierna que acha que tem uma coninha entre as pernas só pode ser mulher de cona imatura, daquelas que se apanha ao engodo e que se atira de volta ao mar por manifesta falta de peso e maturidade, por falta de especificação legal. Mulher que acha que tem uma coninha é mulher que parou de crescer quando tinha oito anos, é mulher que deve ter, algures em casa, uma divisão só para as Barbies e para as Bratzs. Basicamente, mulher que tem coninha leva apenas fodinhas.

Enfim... voltemos à vaca fria: só se aceitam dois desvios em relação à norma do epíteto conal - por respeito aos regionalismos e por deferência a mulher estrangeira.

No primeiro caso, aceita-se perfeitamente que mulher de cunho regionalista imprima à conversa de cama uma deriva nortenha ou até insular - por exemplo, a minha décima sexta chamava-lhe cenisga, a minha décima sétima chinchona e a minha décima quarta vinha-se sempre que eu usava qualquer frase antecipatória com o termo chucha. Como nada tenho contra o dialecto galaico-duriense, esse adamítico bastião de resistência à romanização, nem contra o falarejar micaelese, resquício do Português de quinhentos, ou sequer contra o patois algarvio, admitem-se perfeitamente estas três variantes.

O mesmo relativamente à mulher não portuguesa - mas com as devidas adaptações. O pior caso sucede quando nem eu nem ela partilhamos a mesma língua e temos que recorrer ao inglês para comunicarmos - convenhamos que, depois do Pulp Fiction e de toda a catrefada de séries pós modernas que surgiram no cabo, um gajo dizer Fuck me! ou I'm gonna eat your cunt é tão transgressivo como dizer You have a fat ass ou Your hair looks bad (em certos casos, será até menos transgressivo).

Se ela é, pelo contrário, originária de uma cultura e de uma língua que dominamos, o caso resolve-se facilmente: basta saber qual o termo equivalente, no seu vocabulário, ao epíteto conal. E, não, não se deixem ir em conversas, porque a praga das ratinhas e das coninhas é verdadeiramente universal. 

Com as brasileiras, por exemplo, nunca aceitem nada menos que buceta. As xanas, xaninhas, pererecas, xoxotas e quejandas não passam de palavreado infantil para enganar papalvos. Aliás, homem que é homem e não é papalvo só se digna montar uma canarinha depois de a ter feito dizer-lhe: vou dar minha buceta para você, frase que é um bom epítome do deboche e da vadiação para uma mulher brasileira, sendo o dar pior que o foder (dica: com as sul-americanas de expressão espanhola, funciona muito bem o vocábulo chucha que, curiosamente, é o mesmo que é javardamente utilizado no reino dos Algarve).

Resumindo e concluíndo: o sexo quer-se feito com palavras fortes, nada ambíguas ou ambivalentes.

Como fazer então perante uma ratinha, uma pipoquinha ou uma coninha, quando inopinadamente elas se nos atravessam à frente? Simples. Sigam-me na conclusão do episódio de abertura.

- anda, anda, lambe-me a ratinha!

ajoelho-me entre as pernas dela e reclino-me perante o sexo imbrífero. A incongruência da coisa confrange-me. É uma cona exuberante, depilada como gosto, pertencente a uma tipa que, apesar de ser facaneia na cama, não só está a fazer um doutoramento em Engenharia como é também professora universitária, uma mulher do Norte que conduz um espaventoso Porsche Boxster, uma oferta do pai, industrial da fiação, o carro um statement em que a bota não bate com a perdigota da ratinha. Ainda se tivesse dito rata - palavra ainda mais detestável - talvez a desculpasse com um putativo estágio como peixeira no Bolhão. Agora ratinha? Ná, há que educar esta senhora, na boa tradição dos campos de reeducação de Pol Pot e de Estaline.

Abro-a com dois dedos, a furta-passo. Está viscosa e mais que preparada para me receber, qualquer parte minha, não importa o quê. Uso a táctica fálica do pau e da cenoura, o pau frascário que prometo, a cenoura mela que prometo também, mas que não dou para já.

- que queres que faça, Rita?

- a ratinha, lambe-a, lambe, contorce-se ela.

- queres que ponha a minha boca na tua cona, Rita, pergunto, impávido e sereno, treinei imenso ao espelho.

Silêncio. Gemidos, mais roçar de ancas. Afasto os dedos, fico só à esculca, a respirar-lhe para cima da vulva, é uma cena básica de demarcação de território, estou lá, mas não estou, aprendi naqueles programas da natureza, da BBC, com leões e assim. Deixo o tempo escorrer um pouco mais, deixo que ela fique aflita, a pensar que vai ficar pendurada. Subo-lhe até ao ouvido e sussuro-lhe, enquanto a minha mão volta a fazer contacto com ela:

- diz-me onde queres a minha boca, Rita.

Silêncio. Respiração pesada.

- diz-me que queres a minha boca na tua cona, Rita.

Silêncio. Os meus dedos devassam-na e difluem, agora. Muito.

- diz-me, diz-me que queres.

E ela diz, de olhos fechados, a cintura esgarabulha:

- quero a tua boca na minha cona.

Bem vinda ao mundo dos adultos, Rita.




27.1.09

B is for being blown by my number 22

Encontrámo-nos algures para lá da ponte Vasco da Gama, numa zona que conheço muito mal mas que tem um parque de estacionamento imenso. E vazio, àquela hora do dia, mesmo em pleno Verão. Pela primeira vez estávamos sós e, dos beijos a abrir as hostilidades rapidamente passámos para actos de barbárie e demais ofensas à Convenção de Genebra.

Ela tinha, na altura, 18 anos e era, sem tirar nem por - embora em formato morena profunda - a imagem cuspida da israelita Omer Goldman.

Eu teria uns trinta, trinta e um, e estava muito pouco à vontade dentro de um carro parqueado em público, tendo em conta que ela, nesse preciso momento, me estava a atacar a braguilha com os seus dedos longos, dedos de pianista, um ataque cirúrgico dirigido à erecção aperrada que se afadigava em retesar as paredes finas dos calções que trazia vestidos. Com um olho no burro e outro no cigano, não fosse andar alguém às amoras pelo parque de estacionamento adentro e, desfeita a compostura da braguilha, reclinei-me para melhor poder ver a forma como seria respondida a pergunta que se me coloca sempre que uma mulher me toma o sexo pela primeira vez: que fará a seguir?

Ficará com o assunto entre mãos e assobiará para o lado?

Deixa-lo-á de fora e prosseguirá com as explorações tácteis?

Descerá a cabeça e pô-lo-á na boca?

Fará o movimento suavemente ascendente e depois suavemente descendente que todas as mulheres, de todas as idades e nacionalidades conhecem instintivamente desde a noites dos tempos?

Observemos, então. Um segundo, dois segundos, três segundos.. ok, vai boquejá-lo, porreiro. Quatro segundos depois, a minha glande está na sua boca.

Surge, imediata, a segunda pergunta, consequência da resposta à primeira: darei pelos dentes dela? Cinco segundos decorridos, e a resposta à segunda pergunta é negativa.

Mas, de repente, aos sete segundos, quando tudo tinha ar de que se iria caminhar para o velho e confortável fellatio no carro as usual, eis que soam as campainhas de alarme.

Houston, we have a problem.

A serious, motherfucking, huge problem.


Incrédulo e com dores excruciantes, arregalo os olhos e observo bem a manobra que ameaça transformar-me, de galhardo exemplar de fina estampa masculina em retorcida amostra de anterior garbosa masculinidade.

E o que é que ela fazia, afinal? Simplesmente isto: apertava-me em cima, no nó do pau e, depois, sem aliviar a pressão, fazia descer a mão com força, à bruta, mas rodando o pulso enxacoco cerca de 270º, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. E não, não era tanto a força, aquilo que me fazia torcer de dor.

Era, justamente, a torsão.

Das duas, uma: ou esta tipa praticou a técnica da masturbação masculina num pau de porco ou então tem a mão arraçada de saca-rolhas e acha que a minha pobre haste é uma rolha a precisar de ser sacada do gargalo. Como chegámos até aqui?

Bom, descobri mais tarde que, para além de 4 ou 5 fodas acabrunhantes, a sua experiência prático-teórica era baseada numa prateleira de filmes pornográficos que ela consumia desalmadamente - e isto, que só por si deveria sempre constituir-se como um facto excitante de se saber sobre uma miúda que, não só era nova como era gira, é que estragou tudo.

Como já ficou dito mais abaixo, a pornografia comercial é a morte da naturalidade no sexo. Jovens impressionáveis, com pouca rodagem, acabam por achar que o sexo garamufo é assim mesmo, com gajos a darem-lhes grandes ranabas e que, quanto mais à bruta, melhor e que broches, é fazê-los como quem torce o pipo a pombos-da-rocha (mais tarde, verifiquei com desilusão que o broche fora prenúncio de uma foda tão má que nem contá-la aqui vale a pena).

Ora, aproveitando esta pequena tribuna, de onde peroro para os poucos que me seguem com maior ou menos atenção - sim, falo claramente de vocês, caros leitores e leitoras - aqui vos deixo um pequeno manual de como fazer do sexo oral uma experiência inesquecível e não um evento traumatizante para quem está no receiving end.

Bom, comecemos pelo exórdio, a descrição anatómica.

Um caralho, minhas senhoras e meus senhores, tem duas partes, a saber, uma funcional, a glande, e outra decorativa, o corpo peniano, a coluna, a haste, o pescoço, ou o que quer que lhe queiram chamar. Agora, para efeitos de fellatio (nome amaricado que se dá ao tão genuinamente lusitano broche) a haste só tem uma única função: a de servir de pega.

E porquê? Porque todos os terminais nervosos, todas as sinapses, todas as dendrites responsáveis pelo prazer e pela excitação estão num único local: na glande (a sensibilidade da haste é, muito provavelmente, igual à de um braço).

Definida que está a anatomia, passemos então ao modus operandi e aos erros mais comuns:

1) Agarrar a haste com força, com a mão toda, como se não houvesse amanhã - erro de principiante ou de pessoa insegura. Não é preciso agarrá-la com a mão toda, sob pena de a esmagar ou de a aleijar para a vida - bastam dois dedos, ao de leve, na zona de transição entre a glande e o corpo, só para o manter sob controlo, sem que se escape da boca;

2) Executar um vaivém frenético com a boca, para cima e para baixo, enquanto se planta a mão, fixa, no corpo - outro erro crasso que, não só conduz ao cansaço da ganacha da executante, como diminue o prazer do executado, podendo até causar alguns estragos às mucosas envolvidas. É preciso, neste caso, fazer exactamente o contrário: mover só a mão, apanicar a haste com os tais dois dedos acima ut supra e deixar a boca quieta, de preferência nunca envolvendo os dentes;

3) Não usar a língua. Se se parece com um gelado e se tem aspecto de gelado, se calhar não custa nada tratá-lo como se fosse um gelado. Uma língua perguntadeira e bailadeira opera maravilhas pelo Bem da Humanidade;

4) Esquecer o escroto. O escroto, amigas, é o melhor amigo do homem. Segundo apenas para a glande, mulher que domine bem um escroto domina esse homem para a vida, you mark my words;

5) Chupar e não engolir - é feio. Vai, não só contra as regras da Civilização as we know it como também viola vários artigos da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Se fosse para se vir na atmosfera, a Natureza na sua infinita sabedoria, faria com que um caralho viesse com a respectiva arandela de nascença. O melhor do broche, amigas, é que ele é, basicamente, prazer portátil e condensado, instantaneamente usufruível, em praticamente qualquer local e altura - basta tirar o periscópio, estimular o animal e recolher o fruto do nosso ventre no vosso próprio ventre. Mas, para que isso aconteça, há que não dar uma de Mónica Lewinski e fazer as coisas como deve ser, para evitar escandaleiras e roupas, vestidos, assentos e demais parafernália cénica manchada com umas nódoas filhas da puta que custam a sair como o raio que as parta.

6) Bater à bruta e à francesa. Mostrem-me um homem que diz gostar de uma rapidinha brochal e eu mostrar-vos-ei, ou um rebarbado, ou um mentiroso. Um broche é como um peru no forno: do recheio até ao osso, deve durar pelo menos do Natal até ao Ano Novo. O broche, quanto mais lânguido e delambido, melhor.

7) Nunca, mas nunca, torcer ao pipo ao pau do homem com quem estão. Lembrem-se que o verbo torcer só rima com duas coisas: bico ao prego e pepino desde pequenino.

26.1.09

A is for anytime soon

Brevemente (talvez esta noite, se a miúda melhorar da constipação) um manual para a execução em regra de um fellatio com todos os matadores, logo seguido de um manual de etiqueta para a prossecução a contento de um cunnilingus, o tudo rematado pela conclusão da minha primeira vez.

Isto, claro, se não houver outras sugestões ou desafios por parte dos leitores.

23.1.09

F is for flash forward #2 - framing my number 43

Conhecíamo-nos de congressos. Coisas anuais, esporádicas, umas vezes em Portugal, outras em Espanha. Quando calhara acontecer no Porto, a sua cidade, acabámos não sei como - ela, eu e mais quatro ou cinco pessoas - no Capa Negra II, até às tantas da matina, a beber tulipas e a consumir francesinhas como se o Nicolas Sarkozy fosse vender o hexágono à Rússia no dia seguinte.

Dessa noite ficou-me a recordação de uma indefinível frescura, de uma proximidade com aroma a maçãs verdes e do sotaque nortenho cerrado, cheio de anda cá à minha beira e carago, foda-se. Ficou a recordação e pouco mais.

Atolado no lamaçal do lufa a lufa do quotidiano, o aroma a maçãs verdes rapidamente se esfumou da minha memória para só se reactivar quase um ano depois, altura em que, pendularmente, o congresso se realizou em Lisboa. Calhou então a Sónia cobrar o jantar de francesinhas e tulipas e exigir saber de que raça eram os bifes da Portugália

- e calha mesmo bem porque o meu hotel é logo ali na Almirante Reis

e, enfim, vou-vos poupar aos detalhes gastronómicos do almoço e passo logo ao que interessa. E, o que interessa é que o Antunes tinha a sua loja montada igualmente na Almirante Reis.

O Antunes, como era bem sabido da cerca de dezena e meia de maluquinhos do preto e branco analógico que ainda resistiam em Lisboa naquela altura (agora devem ser dois ou três, apenas) era o gajo que melhor arranjava máquinas fotográficas destrambelhadas. Nesse lote, no das destrambelhadas, se tinha incluído a minha fiel Nikon FM2, a máquina com que eu atravessara a recta final da adolescência e a restante idade adulta, a ler religiosamente a Photo francesa e a aprender a revelar rolos a preto e branco em casa, as mãos lixadas pelo Rodinal, o bolso sempre vazio pela compra em ritmo acelerado de película, fixador, banho de paragem e revelador.

E o ampliador. E as lentes do ampliador.

E essas merdinhas todas que haveriam de, poucos anos mais tarde, se tornar obsoletas pelo aparecimento das máquinas digitais, essas Bimbies da fotografia, que homogeneizaram o gosto e o nivelaram por baixo pela supressão do acto de pensar a fotografia, substituído este que foi pelo apertar mecânico e continuado do obturador

- não estou a pagar filme, isto é tudo pixeis e dots, posso tirar as fotos que quiser, 10, 100, 1000 fotografias que seja, depois escolho a melhor

e a melhor a ser invariavelmente uma bela bosta de fotografia. Bom, adiante. Voltemos à Portugália e à Sónia e à minha proposta em passarmos pelo Antunes

- para levantar a máquina que já ando com saudades de bater uns bonecos e fica mesmo ali ao dobrar da esquina

e a Sónia imediatamente interessada, que bonecos, que máquina, que rolos, que luz, que temas, que experiência, se eu soubesse antes que tu fazias fotos dessas tinha-to pedido, nunca ninguém me tira fotos de jeito, fico sempre com os olhos tortos, ou com o pescoço à banda, ou desfocada ou com os pés cortados, já tentei tirar fotos a mim própria mas atrapalho-me e fico sempre com os olhos tortos, ou com o pescoço à banda, ou desfocada ou com os pés cortados, é aqui a loja, olha que coisa minúscula, é esta a máquina? parece tão antiga, tão demodé, a lente é pequenina

- é pequenina, mas tamanho não é documento, custou-me os olhos da cara, exactamente porque é muito luminosa, abre a f1.4 e tem um picado a f11 que só visto

e tens rolo lá dentro? De 36 fotos? Então não é tarde nem é cedo, sobes já aqui comigo ao meu quarto e tiras-me umas fotos aqui à janela, com os telhados ao longe, e ali, ao fundo, mais longe ainda, àquela nesga de rio.

E foi assim que, de repente, dei por mim no quarto alugado pela Sónia. Uma história qualquer de um grande evento internacional, médicos ou optometristas ou lá o que era, a decorrer em Lisboa deixara-a sem grandes opções em termos de alojamento – e o melhor que conseguira fora isto.

E isto, já se sabe, era este quarto. Lanço o olhar em volta e faço a análise possível.

A mobília, no seu anonimato desolador, gritava histórias de efémero, de passageiros desirmanados, de encontros desencontrados. A cortina de plástico do chuveiro com flores desbotadas a dar com o tapete de borracha manchado, as ventosas já esgaçadas definitivamente desligadas do fundo em esmalte rachado da banheira. A topografia acidentada do sofá, às riscas, como a abelha Maia. O nórdico pelintra. A terrina de faiança multicolor . Os cortinados destilando manchas do esperma do tempo. A alcatifa ratada, as cadeiras forradas a napa branco-sujo.

A única coisa boa no quarto era, para além da Sónia, a janela.

(continua)

L is for flash forward #2 - number 43's little man in the boat

Eu, que nem sempre concordei com o Gueorgui Pinkhassov quanto às janelas, aprecio esta com entusiasmo.

É larga e luminosa. Apesar da sanefa puída, o que fica aberto à luz é suficiente para deixar entrar uma grande parte da baixa e do rio lá ao fundo e para acomodar com desafogo a silhueta da Sónia que se chimpa agora com garridice no peitoril e que pergunta, de cabelos lisos não muito curtos, soltos ao vento, que tal assim?, enquanto se debruça para trás, felina.

E eu, que vou murmurando vagos sons de aquiescência, enquanto me afadigo de volta da máquina, subitamente arisca para comigo nas suas permutações possíveis de velocidade de obturador e abertura de diafragma, eu que vou rememorando mentalmente o checklist para a boa prossecução do retrato a preto e branco

- integrar de maneira fluida a trilogia modelo, local e cenário

eu, que penso que até é vaga e estranhamente excitante estar ali, naquele quarto,

- saber utilizar o local

eu, enquanto varro essa ideia insidiosa para o fundo do consciente, começo a delinear um plano de sequências que me permita espremer ao máximo o único rolo que tenho.

O problema é que, se queremos fazer retrato com uma lente fixa de 50 mm, temos que nos aproximar. Muito. E acontece aquilo que aconteceu então: invade-se o espaço privado da pessoa e aponta-se-lhe um olho cego e escuro à cara. Um olho que perscruta, que analisa, que se demora, que intimida, que se impõe. Ou não: para a Sónia, estar ali um tipo quase desconhecido a fotografá-la era aparentemente o mesmo que nada. 

Curioso, dei por mim a pensar se a história do nunca fui bem fotografada teria alguma verdade, mas essa foi outra ideia que assim como veio, assim voltou para donde viera, preocupado que estava em

- controlar a exposição

e em me posicionar, o botão do obturador a ser premido apenas quando tudo - a luz, o olhar, muito importante o olhar, a pose, o fundo - parecia perfeito

- disparar apenas no momento certo

duas, três exposições, já está, vamos à quarta, gira a miúda, tem uns olhos expressivos e sabe procurar a melhor pose, sabe deixar a luz na face, o modo como se inclina realça-lhe bem o peito, ligo os candeeiros para

- usar luz de diferentes origens

avanço e recuo, debruço-me sobre ela, detenho-me ora num pormenor dos ombros, ora na moldura que o seu cabelo faz ao rosto, dou uso às regras que dizem

- utilizar enquadramentos variáveis e encontrar a distância ideal para transmitir a ideia pretendida.

Já vou quase a meio do rolo, sei que tenho uma ou duas giras já, ela pergunta quais, numa ela está com o sorriso a bailar-lhe nos lábios, a franja a tapar-lhe os olhos; a outra, só céu e mulher contra a luz da janela, o peito em contra-luz, o tecido fino a traí-la, e ela, se incomoda, eu tiro. 

E tira.

Ok. Não esquecer de respirar. Fingir que é tudo perfeitamente natural. Mexer nos botões, soprar no filtro skylight da lente, levar a máquina à cara.

Focus.

Onde íamos? No peito. Ok. Faltam 14 exposições. Focus.

Sai da janela, deita-te na cama, estica os braços, reclina-te, mete o cotovelo para dentro, olha para a câmara, inclina o pescoço, vira-te mais para aqui, as instruções em surdina, profissionais, ela estica-se, inteira, novamente felina, recordo a última regra que me ensinaram

- correr riscos compensa

Tira tudo.

E ela tira, tudo, não era já muito, o calor emana dela em ondas de reverberação, a fotografia é agora o meu escudo, a minha máscara, o assobio para o lado que disfarça o verdadeiro elefante na loja de porcelana que é o corpo nu dela a centímetros do meu, vestido, faltam cinco fotos.

Foto de conjunto, mulher e cama, na diagonal.

Quatro.

Deito-me no chão, faço um plano contra-picado, escondo a erecção que me devora a perna direita, sinto nitidamente a humidade que alastra pelo tecido das calças.

Três.

Subo. Ponho-me de joelhos na cama, por entre as pernas dela, a lente está desfocada. Foco-a, surge nítido e cristalino o seu sexo glabro, nitidamente entumescido, a latejar, impante, encharcado

- the little pink man in the boat, wallowing in the crimson sea,

duas.

Levanto a câmara, baixo a máscara, baixo a boca, devagar, muito devagarinho, o calor dela a irradiar-me, o corpo uma sarça ardente, os seus braços a deslizar ao longo do corpo, tem certamente os olhos fechados, delicada e lentamente estabeleço contacto, a minha língua dardejante como Moisés, separando as águas da carne, provo-a, ela soergue as ancas, as mãos dela engalfinham-se no meu cabelo, levam-me ainda mais ao seu encontro e uma.

Acabou-se-me o rolo.



16.1.09

F is for flash forward #1 - fucking my number 15

Disse-me mais tarde que viera a correr do aeroporto até à minha casa e que enquanto durara a corrida viera com o coração nas mãos.

Entretanto, havia que lhe abrir a porta. Já não a via há meses largos mas não lhe notei diferenças – o mesmo cabelo curto e platinado, os mesmos olhos esverdeados, a pele muito branca, aveludada como pericarpo de pêssego, os ouros, um perfume pesado, de Inverno, mas sugerido apenas, o tailleur cinza de aspecto profissional, a voz, anormalmente tremida

- olá

a mesma voz das intermináveis conversas telefónicas, iniciadas com o singelo

- olha, a minha irmã entrou na Universidade aí, importas-te de a orientar e de lhe servir de cicerone enquanto ela arranja casa e se instala?

a mesma voz das conversas sem fim, continuadas primeiro com o intuito de saber novas da caloira

- está tudo bem, são só as praxes do costume, ela tem jeito para aquilo, sempre de bom humor, bem disposta, desarma qualquer um

e depois prosseguidas apenas porque ela dizia

- gosto tanto de ouvir a tua voz

tanto fazia ser de dia, ou de noite, só porque sim, as evasivas perante o marido, a justificação da viagem

- tenho que ir ver como se está a dar a Carla por lá, são só dois dias

a depilação, a ida ao cabeleireiro, a exfoliação, a compra do bilhete, o embarque, o marido, o filho, a sogra, os quatro a despedir-se, o miúdo em prantos, ela de aperto no coração a viagem toda, a ficar molhada quando o comandante avisou

- senhores passageiros, iniciamos neste momento a descida para Lisboa, é favor apertarem os vossos cintos, recolher os tabuleiros e endireitar as costas das cadeiras, obrigado

o coração nas mãos, a latejar-lhe ritmadamente no meio das coxas a adejar, as pernas fechadas, com força, a contracção, ora voluntária, ora involuntária, dos músculos, o táxi que pára, eu que lhe abro a porta, eu que a deixo entrar, eu que lhe digo

- olá

de volta, eu que lhe fecho a porta e que a encosto à parede, já te tinha contado esta história, como no Wild at Heart, lembras-te, quando o Willem Dafoe encosta a Laura Dern à parede, ela, alta, um mulherão, sozinha, com ele no quarto. Sozinha. O marido lá longe e ela ali

- s o z i n h a

mais o filho da puta do Bobby Peru, ela, de combinação transparente e escura, uma malha fina e curta por onde se avista os mamilos claros, ele de dentes podres, a lançar perdigotos para o ar, boçal, javardo, a encurralá-la.

Ela, sozinha, encurralada.

E nós, a ver tudo, nós que adivinhamos mais do que vemos a mão dele a encaixar-se nela, nós que suspeitamos a sua mão por sobre a concha do sexo dela, nós que sabemos da força, da pressão inusitada que a mão dele exerce no macio do sexo dela, nós que queremos que os dedos ásperos dele se movimentem dentro dela, nós que queremos que os dedos dele, dedos nossos, a abram como a um fruto maduro

- like a Christmas present

nós a querermos que a rede fina da combinação da Laura Dern esteja molhada, nós a vermos e eu ali, no meu próprio filme, a evocar outras vezes em que sentira os meus dedos assim, as texturas, a humidade permissiva, ela de olhos fechados e o Bobby Peru a dizer-lhe coisas, muitas coisas, ao ouvido, ela de olhos fechados, assustada como um coelho defronte dos faróis dopplerianos que se aproximam, céleres, coisas sussuradas, noutros termos, noutra língua, mas com o mesmo tom, com as mesmas palavras eu não lhe disse

- I sure do like a woman with nice tits like yours, who talks tough and looks like she can fuck like a bunny.

Mas eu não sou o Bobby Peru, fico calado, a senti-la, ela parada, imóvel, de pernas abertas, a sentir-me senti-la

- can you fuck like that?

a ver-me levar os meus dedos à boca dela, a dá-la a provar-se a si própria,

- you like it like a bunny?

a deixar-se conduzir até ao meu quarto, até à janela que dá para o mar

- 'cause if you do, baby, I'll fuck you good, like a big old jack-rabbit, jump all around that hole!

anoitece lá fora, e eu continuo calado, aprendi a gerir as expectativas na tropa, a lidar com a pressão, anos e anos de praxes violentas, de treino de fuga e evasão, a pancada, os truques dos sargentos-mor que, noutra era geológica, ainda fizeram a guerra de África, por entre os rios da Guiné e as pacaças esventradas à granada, aprendi quase tudo com eles, sou teso, sou duro, sou mais teso do que duro

- Bobby Peru don't come up for air!

e continuo mudo, ela continua expectante, reclino-me, fecho os olhos, ela aproxima-se, reclina-se comigo, beija-me o pescoço, eu deixo, a sua mão procura-me lá embaixo, atrapalha-se com os botões, liberta-me, continua a beijar-me, com a outra mão desaperta-me a camisa mas não aguenta mais e continua, com a mão, mais rápido, deixa de me beijar e olha para o que a sua mão faz, cada vez mais rápido, o meu sexo estupendamente entumescido, como um Deus primitivo que se limita a estar ali, entre os dois

- e não se fala mais disso

e olhamos agora para aquilo que a sua mão esquerda faz e eu olho com olhos de ver, na sua mão esquerda uma aliança em ouro e um anel de noivado, uma pedra a devolver uma fracção da claridade recebida, num movimento cada vez mais tremido, num crescendo de velocidade e eu decido vir-me

- ali e agora

e controlo-me tão bem, a intensidade, a força, anos e anos de prática masturbatória e de fodas superlativas a serem finalmente valorizados, venho-me em silêncio, e ela abranda agora, segura-me com quatro dedos e acaricia-me com o polegar, devagarinho e é então que eu reparo, vejo com olhos de ver: vejo o meu sémen que escorre lenta e vagarosamente ao longo dos seus dedos e que recobre, quente, alvo e espesso, a sua aliança de casada, o marido lá longe e ela, ali

- s o z i n h a

comigo. E não aguento mais, e o desejo explode-me no ventre como um fruto fermentado, que se foda a contenção e a guerra de África e levanto-me e digo-lhe:

- vira-te. Bobby Peru don't come up for air.

15.1.09

V is for venus fly trap

A Patrícia entrou no nosso círculo de amigos através da Cláudia, quando ainda frequentávamos o 12º ano. Era uma miúda petite e atraente, de cabelos castanho curtos à garçon, que detinha quatro características sui generis que imediatamente me fizeram reparar nela: andava na Universidade, num segundo ano qualquer de Arquitectura; era fumadora compulsiva de Malboro Lights; tomava a pílula, coisa que alardeava sem rebuço; e tinha uns olhos egípcios, opalescentes, magníficos. Era também mais velha do que eu dois anos.

Conversa puxa conversa, pátáti pátátá, as semanas foram decorrendo, as férias chegaram e o grupo foi-se reunindo para o ócio que haveria de vir. Eu - que resolvera ir contra a vontade dos meus pais e decidira entrar na Marinha ao invés de continuar estudar, é uma pausa, nada mais – estava a queimar os últimos cartuchos de uma vida à civil, vida que levara até então de forma despreocupada e displicente. Curiosamente, a decisão – que fora tomada, confesso, porque o pai da miúda por quem eu na altura estava platonicamente apaixonado era Contra-almirante – fez a Patrícia interessar-se por esta minha (e até então insuspeitada) atitude de rebeldia e de lesa-parentalidade.

Se me perguntarem o porquê desse interesse, eu apostaria na forma em como ela encarava a vida: com amargura, displicência e acomodação. A Patrícia era capaz de ficar horas em modo drone, a falar mal de tudo e de todos, especialmente da mãe que, a acreditar nas suas palavras, era a maior megera à face da terra depois da morte da Bruxa má,

- não posso, eu simplesmente não posso com aquela mulher!,

mas também a falar mal do pai

- um corno manso que faz as vontade todas à minha mãe;

do irmão

- é o menino bonito da mamã

das amigas

- sempre as mesmas vacas, interesseiras e falsas

do ex-namorado, com quem tinha perdido a virgindade

- um filho da puta sem tomates

e da vida em geral

- estou farta de ser fodida e mal paga. Porra, toda a gente me fode!

E foi aqui, com este “e toda a gente me fode” que a Patrícia me fez cair do céu dourado do platonismo e descer à bem real terra de Sodoma. No more olhos de carneiro mal morto para miúdas que fingiam não me conhecer, no more masturbações de fazer crescer calos a olhos vistos. Invistamos nesta senhora, para a Patrícia e em força, diria o Salazar se ainda fosse vivo. Não que eu fosse masoquista ou que tivesse visto a luz ao som daquele vernáculo todo – nada disso. O que me levou a ter que fazer pela vida em prol da miúda foi uma combinação de tesão há muito acumulada, do detectar o leve cheiro a convite da especiaria secreta que dela emanava, da pungência, enfim, dos seus olhos egípcios, opalescentes, magníficos.

E foi assim que esta nóvel vencida da vida ganhou um ouvinte dedicado. Um ombro amigo, no fundo, ora pronto a chorar com ela quando as injustiças que lhe sucediam eram fortes demais, ora pronto a rir-se com ela das desgraças alheias. Mas não era só o ombro aquilo que eu lhe pretendia dar. Não se dependesse da minha vontade.

E a vontade não tardou em concretizar-se em matéria literalmente palpável quando, numa tarde em que a fora buscar a casa para irmos não sei onde, ela me apareceu à frente de saia comprida e camisola largueirona, quando, ao baixar-se para pousar uns livros que trazia consigo, eis que o decote da blusa desce para além dos peitos oferecidos e a pele escura

e os mamilos tesos e acobreados como os das índias tupinambá que vira uma vez na National Geographic

das mamas dela fica assim, em suspenso, a desafiar indecorosamente a gravidade, a teoria das cordas e a minha timidez.

Ora, o deslize passaria bem por entre as gotas da chuva sem outra consequência do que a de eu ter que esconder a erecção que inopinada e tempestivamente me ocorrera. Passaria bem, dizia eu, não fora o caso de ela me ter olhado com aqueles belos olhos egípcios, opalescentes, e eu ver neles, claramente vista, a propositada intenção que presidira à acção, a premeditação na escolha dos livros, na posição estratégica do pé direito, na selecção da justa largueza da camisola, na ausência propositada de soutien, na fracção de segundo a mais que demorara a soerguer-se, no modo como batera os olhos e avaliara a minha reacção, no modo de como, no fundo, me provocara.

E a provocação da fêmea, meus amigos, é sempre obra do diabo. Cego, dei-me conta que ela dera fé que eu dera fé e filei-a logo ali pelo pescoço. E beijei-a (pela primeira vez na vida, tomara a iniciativa - o que só prova que um homem, desde que óbvia, correcta e precisamente aguilhoado, nem sempre é um rato).

E que boca, que beijos! Nada a ver com o esmagar de lábios da miúda das calças de ganga elástica ou com o beijo comatoso da material girl. E o resto, senhores, o resto.... é que havia mais! A Patrícia era toda ela carnação rija, o peito conforme ao arcaboiço, duas metades de laranja da Baía, elásticas e firmes, os tais olhos do Império Médio. Mas tudo, olhos, mamilos, o secreto olor a especiaria, tudo, absolutamente tudo era batido por aquilo que a Patrícia detinha de mais especial - o sexo.

O sexo e sua topografia acidentada e ingurgitada que eu transformaria com as minhas mãos numa espécie de anamorfose cartográfica, a cona primordial, o templo matriz que descobri, mais tarde, ser a regra, a régua e o esquadro que formataria para sempre o desejo futuro, o sexo que se abriria, um mês depois, à minha curiosidade atrapalhada.

Muito bom, este reviver e recordar.


14.1.09

E is for earth, wind and fire


A bem dizer, o meu namoro com a Patrícia deixou-me um pouco nefelibata. Pela primeira vez, uma namorada. E que namorada – mais velha, mais experiente, uma mulher, não uma miúda, todo um potencial de promessas feito.

Contudo, as promessas dos amanhãs que cantavam ao som da banda sonora do Garganta Funda esbarraram, infelizmente, numa triste realidade. Putos de 18 anos – especialmente putos de 18 e 19 anos dos anos 80 – não tinham nunca acesso a um espaço só seu, onde pudessem dar largas à sua luxúria. E quase nunca tinham a sorte de terem mães trabalhadoras, ao invés de mães domésticas que ficassem por casa 24 horas por dia, 7 dias por semana, a fazer aquilo que uma mãe doméstica faz sempre tão bem - ser a dona da casa.


Ora, duas casas com as respectivas donas sempre lá dentro – e era esse o nosso dramático caso – só nos deixava um caminho aberto: um carro. O que nos leva de volta ao início do segundo parágrafo: putos de 18 anos – especialmente putos de 18 e 19 anos nos anos 80 – não tinham nunca carro seu (não é como hoje em dia, em que qualquer adolescente passeia a acne num daqueles mata-velhos de 50 centímetros cúbicos, cabrões cheios de sorte).


Logo, espaços públicos com eles. A praia, o cinema, os bares - acreditem, fomos uma vez expulsos de um daqueles bares de coktails coloridos e chapéuzinhos miniatura em papel, porque nos estávamos a beijar indecorosamente, I kid you not - a rua e, especialmente, o jardim municipal e o rio.

O rio, claro, era o Tejo. Aos fins-de-semana, de quando em quando, apanhávamos o barco em Belém e íamos até à Trafaria onde petiscávamos algo nas tascas à beira-mar, algo a que se seguiria mais uma sessão de marmelanço algures numa praia de lodo e cascalho de ameijôa, tudo sempre muito recatado não fossem os pescadores, mirones empedernidos, ficarem excitados demais.

Outras vezes, quando tinhamos uma tarde livre, comprávamos um bilhete de longo curso e íamos até ao Montijo, uma hora inteiro no nosso love boat privado, ela de saias e eu, uma hora para lá e uma hora para cá, com uma erecção filha da puta a querer rasgar-me as calças em direcção ao céu.

Recordo essas viagens com alguma bonomia e alguma agitação no baixo ventre. Eram viagens muito bucólicas, o rio estanhado de lama e palha, algumas alforrecas gigantes aqui e ali a passarem por debaixo da quilha, o vento a enfunar-lhe a saia, ela a desviar o tecido fino para o lado e eu, a crescerem-me aranhas nos dedos, a minha mão a vogar ao abandono, a eviscerá-la com suavidade, as pontas dos dedos como medusas luminosas, a abri-la, a massajá-la, a fechá-la, à descoberta. E, não sei se era por influência do rio se pela estupenda púbis que se me apresentava aos olhos, enquanto a explorava, enquanto a comia com os olhos e a manipulava com as pontas dos dedos, só me vinham à cabeça as palavras do Pêro Vaz de Caminha, em carta de descoberta da terra de Vera Cruz

- e sua vergonha tam nua e com tamta inocencia descuberta que nom avia hy nenhuua vergonha

e era bem verdade, não era vergonha nenhuma aquele montículo piloso, maninho, tão naturalmente aparado, monte onde vez alguma entrara creme depilatório, cera fundente ou lâmina escortanheira, tudo tão bem centrado

- sua vergonha tam alta e tam çaradinha e tam limpa da cabeleira que de a nós muito bem olharmos nom tinhamos nenhuua vergonha

os grandes lábios carnudos, os pequenos a desmentirem descaradamente o seu nome e a enrolarem-se em foldos e em convolutas de carne inervada, tudo tão escuro e tão negro

- como a cona de uma égua que eu uma vez vira em pleno cio, palpitante e viscosa e que me assombrara a carne durante anos e anos, a comparação entre a mulher e a besta a surgir tão perversa quanto excitante

quase tão negra quanto a pele do meu escroto, dizia ela, enquanto trocávamos carícias e notas cromáticas em pleno canal de navegação do mar da Palha.

E, quando não havia mar, havia terra. Havia o jardim.

O jardim era um caso especial. Prenhe de recantos e esconderijos, com uma vegetação tão frondosa que se diria que a qualquer altura saltaria por detrás de uma araucária o próprio David Attenborough, este espaço verde - cortado ao meio por uma ribeira que era mais eflúvio industrial que águas pluviais - acabou por ser o nosso jardim das delícias.

No jardim, ela fumava e fechava os olhos. Cerrava-os com prazer. Eu, encostado a ela, passava tempos infindos a sondar o seu insondável, o meu sexo licantropo a liquefazer-se durante horas encostado às suas pernas. Ela, de olhos fechados, a fumar - dois, três maços de Marlboro Lights - os súbitos olhos egípcios cerrados, o peito o extenso campo onde evoluíam as minhas mãos, em tácteis arabescos, os meus dedos a entrar nela e a sair depois, muito depois, altura que ela continuava de olhos cerrados e eu abria os meus para olhar os dedos

- inevitavelmente, um espesso fio de excitação unia-lhe o corpo ao meu

e nem eu nem ela saberiamos que depois de a ter, quinze dias depois, tudo terminaria em breve.

(Comi-a depois, anos mais tarde, antes de se casar e depois de se divorciar. De todas as vezes, mesmo que mais velha e mais gasta, nunca dela deixou de se emanar o leve cheiro a convite da especiaria secreta).

H is for have your say


Enquanto eu componho a segunda parte da história da minha primeira vez, forçosamente softcore, porque é que não aproveitam vocês o tempo de espera e a caixa de comentários para me dizer que tal foi a vossa primeira vez? :)

S is for stop the bullshit and let's fuck

I have an ancient Indian crucifix around my neck, my chest is hard and brown. Lying on stained and wretched sheets with a bleeding virgin we could plan a murder, or start a religion, declamava o Jim Morrison.

Eu, que nada percebo de poesia, só posso dizer que a minha primeira vez foi assim como que a modos de um acto falhado - se nem sabia o que fazer com as mãos, de certeza que não saberia sequer como dar início a uma nova religião.

Tem piada, em todo o caso esta expressão. A minha primeira vez.

Diz-se isto e ninguém vem por detrás perguntar

- a tua primeira vez em quê?

Só há uma primeira vez e essa é quando entramos em alguém ou alguém entra em nós, a invasão última da intimidade da carne - ocasionalmente, se os astros estiverem devidamente alinhados, até a alma e o espírito entram em acção, os fluidos e as sensações físicas dos corpos em movimento nada mais do que epifenómenos de índole humoral. Numa sociedade que deixou de ter ritos de passagem, este acontecimente ainda é o que sempre foi desde a noite dos tempos: o baptismo da carne, tout court.

Sendo o incurável romântico que eu era, sempre imaginei que a minha primeira vez seria uma espécie de uma primeira vez à gaja. Vocês sabem como é: só violinos e amor, um leito confortável e espaçoso, velas acesas, o seu fumo ténue a evolar-se em direcção ao céu sagrado, um homem a traçar devagar o sinal-da-cruz, a seu lado a mulher certa, a ninfa amada, os seios pequenos pomos prúnicos, o mons venus estilizado e recatadamente escondido por um manto cerúleo e macio, a cair em dobras espessas pelo lectus abaixo, tudo – décor e protagonistas - como que a modos de uma epifania do Amor, assim mesmo, com A maiúsculo.

Mas não, na minha primeira vez não houve violinos nem nada daquela tralha toda do parágrafo acima. Houve, isso sim, areia em sítios que se queriam lubrificados e não gripados, muito frio, inquietação e alguma ejaculação precoce num evento fracturante que durou pouco tempo mais do que uma Ave Maria, um orgasmo breve, desastrado, que teve muito mais de deslumbramento, de orgulho e de confusão, que de encontro real entre dois corpos.

Mas comecemos pelo princípio, pelo era uma vez.

Era vez um miúdo que quase a fazer 16 anos teve o seu último contacto com um velo púbico. Estúpido que nem uma porta, deixou-se ficar a fazer festas ao pelame do touro ao invés de o provocar à investida – quando toda, mas mesmo toda a gente sabe que, para fazer reagir um Miúra sedado, é preciso pontapeá-lo mesmo nos tomates; é que, se nos limitamos a fazer-lhe festas no cocoruto, o mais que lhe pode acontecer é dormir de tédio. Ou seja, a besta quer-se excitada para que, não pensando muito na questão filosófica inerente, possa vir a dar melhor o flanco à bandarilha.

Ora, a pusilanimidade paga-se caro: durante uma longa travessia de dois anos no deserto, este vosso escriba não teve outro remédio do que dedicar-se à adoração de Onan, tarefa monótona, ingrata e repetida. Felizmente, e qual deus ex machina, surgiu a Patrícia, a mulher que - por entre várias ocasiões mais ou menos propícias, todas inviabilizadas pela minha proverbial timidez - conseguiu finalmente dar a volta ao meu problema supra.

E agora, dêem-me um curto momento para tomar fôlego, porque este blogue vai descambar definitivamente para a cueca.

13.1.09

I is for flashback #1: Indian summer


Antes da faixa cor de asa de corvo, havia a vivenda. Uma das vantagens de se morar numa vivenda com um quintal enorme é poder ter-se um cão como deve ser.

Uma das vantagens de se ter um cão como deve ser é a de se poder levá-lo a ganhar carraças por entre o restolho das espigas do trigal que ficava mesmo por detrás da vivenda onde morava.

Uma das vantagens de se ter um trigal logo atrás da vivenda onde se mora é a de, numa tarde de verão índio, podermos levar o pastor alemão e a vizinha para o meio das espigas e das papoilas e falarmos de tudo e de nada, ou ficarmos simplesmente calados, o céu acima de nós pintalgado de azul dissonante, enquanto o cão, deitado, arfava sob o calor do estio

- os cães não suam

e os nossos braços desnudos se irritavam na rugosidade das folhas do triticale

- o triticale é apenas metade trigo

e as joaninhas voavam de caule em caule e o cheiro a seiva e a solo argiloso

- a esboroar-se ao sol

entranhava-se pelas nossas narinas adentro, e éramos estupidamente felizes, a ignorarmos que estávamos quase a cruzar definitivamente a linha de sombra de que nos falava

- sem que o ouvíssemos

Joseph Conrad, sem sabermos, como sei agora, que das pessoas e dos sítios da nossa infância se podem guardar muitas memórias, fatias untuosas de realidade, que congelamos e descongelamos a bel-prazer e que servimos, requentadas, quando necessário. Und jetzt, das tut mir leid, voltemos à Cláudia dos meus doze anos.

A Cláudia era uma miúda que nada tinha de português. Neta de quatro alemães, era uma mädchen louríssima, toda ela tez branca e veias azuis a metastizar-se pela derme adentro como se fosse feita de não mais do que alabastro e lápis-lazuli, os olhos verdes a compor o retrato contra o qual sempre a cotejei - um misto de Ingrid Bergman, de Sharon Tate e de proto-valquíria ariana.

A Cláudia, apesar de ser minha vizinha e de ter a minha idade, jogava noutra liga - quando uma miúda é assim gira e, especialmente, quando uma miúda é assim gira e é uma boa cabeça mais alta que eu, the sky is the limit.

E o céu era realmente o limite. Adulada, adorada, popular, a Cláudia tinha na irmã, mais velha que ela 4 anos, a gazua passe partout que lhe permitia entrar na alta roda do Liceu: a zona VIP onde evoluíam os gajos mais giros, as miúdas mais vaporosas, as pranchas de surf, as Yamahas DT, o local de onde as modas eram impostas, as castas sociais eram distribuídas e as pedras de haxixe circulavam de mão em mão. Sim, porque juntamente com o glamour do aparatchik liceal cavalgavam os quatros cavaleiros do Apocalipse do início dos anos 80 – a droga, o sexo, o rock 'nd roll e as calças justas de ganga preta.

Coisas, claro, até então insuspeitáveis para mim. E insuspeitáveis continuaram a ser, mesmo quando nas festas de aniversário de cada uma das duas irmãs a rua se enchia de tipos de blusão de cabedal preto, tipos bem mais velhos, com acne, tipos que lambiam uns papéis com o que parecia ser tabaco lá dentro, tipos que diziam coisas estranhas como dropinar e wax e dá cá um pintor e levas a pedra, tipos a passarem vezes sem fim um disco estranhíssimo (de que vim a gostar muito e que era o La Folie, dos The Stranglers) e outro caoticamente barulhento (o Black in Black, dos AC DC), sons avant la lettre para quem, mesmo um par de anos mais tarde, apenas acharia piada à Nena dos balões.

Olhando retrospectivamente, tenho alguma comiseração por mim próprio, pelo meu eu cenobita da altura, autêntico peixe fora de água que lia de mais e que vivia de menos, que suspirava platonicamente por miúdas que não suspeitavam sequer da sua existência e às quais dedicava secretamente poemas que fabricava nocturnamente à luz da lanterna e ao som do Oceano Pacífico, poemas melancolicamente desajeitados, confrangedores mesmo na sua puerilidade de rima de pé quebrado (recordo agora, com horror, que uma vez tive a desfaçatez de oferecer um canhenho com os ditos a uma colega do 10º ano... meu Deus, as coisas recalcadas e escondidas que eu tenho enterradas no subconsciente e que este exercício está a fazer vir à tona!)

Seja como for, anos mais tarde, muito depois dos trigais e dos AC DC, a Cláudia foi a minha quinta and that, my friends, was the ending of a beautiful friendship.

12.1.09

N is for never

Apanhando a onda do já, aqui segue a a agitação dos nunca:

Eu nunca votei CDS.

Eu nunca paguei para ter sexo.

Eu nunca fumei haxixe ou ingeri, inalei ou consumi de qualquer forma alguma droga ilegal.

Eu nunca vi os Contemporâneos.

Eu nunca vi o vídeo do "dá-me o telemóvel já".

Eu nunca escrevi um livro (mas já plantei uma árvore e tive uma filha).

Eu nunca forcei alguém a ter sexo.

Eu já conheci uma mulher a quem nunca consegui induzir um orgasmo (come rain or shine).

Eu nunca me excitei com homens (bom, admito que acho piada ao Querelle; e que, uma vez com 10 anos, comparei pilas com um amigo da mesma idade, os dois deitados num trigal, num dia de sol; e que, mais ou menos com 12 ou 13 anos, já achei bonitas, homoeroticamente falando, as ilustrações de kamaradschaft do Pierre Joubert).

Eu nunca gostei dos filmes do Fassbinder - excepto do Querelle.

Eu nunca gostei dos modelos masculinos do Mapplethorpe.

Eu nunca gostei de homens com veias salientes.

Eu nunca me canso de ver o Aguirre, der Zorn Gottes, do Herzog (o filme que me levou a aprender alemão).

Eu nunca achei grande piada ao sexo anal (por alguma coisa lhe chamavam contranatura - embora confesse que, um quarto de hora depois, não ache absolutamente alguma diferença sensorial entre o anal e o vaginal).

Eu nunca me masturbei da forma normal até ter uns 25 anos.

Eu nunca terminei uma punheta em mamas.

Eu nunca conduzi uma mota.

Eu nunca vi a estátua da Liberdade (apesar de ter ido a Nova Iorque uma meia dúzia de vezes).

Eu nunca subi à Torre Eiffel (apesar de ter estado debaixo dela uma dúzia de vezes).

Eu nunca fui à Baixa da Banheira.

Eu nunca atirei um piropo a uma mulher desconhecida.

Eu nunca desflorei alguém (gosto tanto deste termo, desflorar).

Eu nunca depilaria o peito.

Eu nunca faria uma tatuagem.

Eu nunca poria um piercing.

Eu nunca diria a alguém quem eu sou aqui, na realidade (bom, esta não vale, há já uma pessoa que sabe quem eu sou aqui, na virtualidade).

Eu nunca pensei em dizer em público aquilo que escrevo por aqui.

11.1.09

G is for gentlemen prefer blondes


Diz-me a experiência que uma loura natural nunca é assim tão loura lá embaixo - mas há excepções a esta regra, com isto das tonalidades a depender das louras e do nosso grau de atenção ao pormenor. Afinal, se um tipo andar de cartões Pantone numa mão e de adaptómetro cromático na outra, encontrará certamente variações de tintagem por mais albina que seja a loura em estudo.

Curiosamente, de todas as mulheres que tive no sentido carnal do termo (e tanto que há que escrever sobre amor, foda e posse, fica para outras calendas), as únicas louras foram, by a strange twist of fate, as minhas quarta, quinta e sexta - assim mesmo, sequencialmente. De todas falarei mais tarde, cinjo-me apenas agora ao assunto sobre a mesa.

A quarta era uma holandesa, de olhos tão azuis, de pele tão branca e de tão louros os cabelos que Hitler, se ressuscitasse agora, não teria dúvidas algumas em a arregimentar para os efectivos procriativos de uma nova raça ariana. Essa sim, era loura integral. Foi uma one night stand.

A minha quinta era neta de alemães. Loura em cima, castanha marrom em baixo. Conhecia-a desde os meus 5 anos e namorei com ela quase dois anos.

A sexta, não lhe conheço a ascendência, presumo que tenha passado pelos seus costados algum soldado napoleónico ou marinheiro bretão. Era loura em cima e castanho escuro em baixo. Foi a mulher com quem namorei mais tempo - 5 anos.

Dada a fraca representatividade da amostra, sei que a conclusão a que vou chegar é pouco fundamentada, mas cá vai: prefiro morenas. Gosto de contrastes, gosto de um negro bem negro, gosto de um negro bem recortado num branco, gosto de ver um púbis marcadamente sexual, farol a atrair navios para a sua perdição, adhan na boca de um muezzin a chamar ao salat, gosto pouco de ver pêlos louros, finos e ralos, esparsos, a infantilizar o sexo, risíveis na sua superficialidade, gosto pouco de púbis louros mas detesto, como já tinha dito várias vezes antes, púbis rapados.

Que, por causa do bikini ou do fato de banho, deixem ficar uma crista, uma faixa de pêlo de alto a baixo, ainda vá; ou, melhor ainda, um triângulo de pêlo por cima dos grandes lábios (algo muito, muito excitante, confesso, é a depilação que, na minha opinião, todas as mulheres deveriam fazer). Agora, uma depilação completa? Não percebo sinceramente porque o fazem. Dizia-me alguém:

- ah, é mais higiénico.

e eu contraponho:

- e banho todos os dias, não tomas? ou duche? e já ouviste falar em bidé? e lactacid, dystron até?

Higiene não é desculpa - afinal, até o Torres Couto, que tinha bigode e comia que nem um alarve nos piquetes de greve da UGT (quando os havia), lavava o apêndice labial com regularidade. Eu acho que é moda, hype apenas - afinal, deve doer como o caraças (deve ser qualquer coisa similar ao espetar farpas de bambu por debaixo das unhas dos dedos dos pés) e a comichão que dará o crescimento dos pêlos deve ser de enlouquecer - uma mulher com o pelame a crescer deve coçar-se com mais afinco e frequência do que um cocainómano em ressaca deve coçar as virilhas. Mas, se é moda, os exemplos púbicos que nos chegam de Hollywood e dos States em geral deveriam ter efeito profilático.

Por exemplo, a Britney Spears, aqui e aqui, com uma cona que parece a bolsa de um mendigo. Ou a da Paris Hilton, aqui, que parece a barba do José Luís Judas (hoje estamos em usar metáforas de sindicalistas). Ou a da Lindsay Lohan, aqui, que aparenta ter caído em cima de algum objecto rombo quando fazia uma espargata e ter tido a ferida resultante suturada com linha de crochet (deve ser outra moda dos States, esta, a de conduzir sem cuecas).

São visões perfeitamente dantescas, as destas conas tornadas públicas, sem pêlo, sem graça, sem griffe, sem jeito. Quem é que se excita a ver algo parecido? Eu não.


10.1.09

K is for kissing Madonna (part I of II)


Naqueles tempos, ainda não havia internet, youtube ou blogues. Aliás, naqueles tempos nem sequer havia telemóvel.Estávamos em 1985 e a Madonna tinha lançado há pouco o seu Like a Virgin. Por todo o mundo, dezenas de milhares de miúdas adolescentes imitavam a pose da Madonna, as palavras da Madonna, os vestidos da Madonna, os penteados da Madonna – o mundo inteiro era um enjoo medonho a Madonnas, cada centímetro quadrado do planeta a ser palco de uma autêntica invasão de púberes, esganiçadas e mal vestidas Madonnas.

Nós, que ouvíamos Pink Floyd desde que nos conhecíamos, que púnhamos a tocar os Aztec Camera no prato do gira discos (sim, ainda não havia MP3) e que organizávamos noites musicais na Fanfarra lá do sítio ao som de John Cougar Mellencamp, Brian Adams, Dire Straits, U2, Saga e Bruce Springsteen, odiávamos a Madonnas como só um adolescente pode odiar um guru de tribo alheia. Mas o homem põe e o Deus do Amor dispõe e as coisas não permaneceriam assim por muito tempo.

Com efeito, mesmo vivendo nós numa terreola assim para o suburbano, longe da cidade grande, onde o Blitz não chegava sequer, era apenas uma questão de tempo até que a madonnite atingisse igualmente algumas adolescentes notáveis lá da terra. O que não era de esperar era que o miasma infectasse logo a Cristina.

A Cristina era, de longe, a gaja mais gira do burgo. Bem mais velha que nós, putos de 15 anos, a Cristina aos seus dezasseis era uma miúda loirita, de olhos verdes, magrinha, que vivia no ar rareficado de uma estratosfera que nós contemplávamos cá bem de baixo, junto à superfície do nosso mundinho bem mais terreno. Seja como for, o que interessa aqui para esta história é que a Cristina deu um dia em aparecer toda envolta em tules, tecidos multicoloridos e muita fishnet pelos braços acima (faltam-me os termos precisos aqui, precisava da ajuda de uma modista) e a debitar muita e desnecessária trivia sobre a Madonna.

Sabem aquele chavão muito em voga nas sessões de auto-ajuda que diz se a vida te dá limões, faz uma limonada? Assim era o João, escarrapichadinho, sem tirar nem por, meu comparsa na organização das noites fanfarrescas e principal responsável pelo alinhamento da noite.

Ora, o João - que sempre que a Cristina aparecia no horizonte trocava os olhos e as vogais - viu imediatamente nessa sua doença uma oportunidade de ouro. E foi assim que, às sextas e sábados, a Material Girl passou a rodar lá nos pratos da Fanfarra, foi assim que as passagens entre o Born in the USA e o Sunday, Bloody Sunday se passaram a fazer com a Like a Virgin a servir de entremeada. E, que dizer? Nada, apenas que o engodo funcionou e que a Cristina passou, não só a ser presença assídua das noites loucas da Fanfarra como igualmente, passadas duas semanas, passou a ser a namorada do João.

Mas não é da Cristina nem do João que se fala aqui. De quem se fala aqui é da prima da Cristina, da Joana. Como naqueles tempos (eu já vos contei que não havia MP3 nem telemóveis?) as famílias ainda não iam de férias para o Nordeste ou para Angra dos Reis, a Joana ia passar as suas férias fora da família nuclear mas chez família mais próxima, scilicet, na casa da irmã da mãe da Joana.

Ora que é que faz uma rapariga de Odivelas numa terreola que nada tinha a ver com o bulício e o cosmopolitismo da Odivelas de meados dos anos oitenta do século passado? Nada. Quanto muito aborrece-se de morte - é que, para mais, a Joana também era uma Madonna Girl, como a prima. Só que, ao contrário da prima, a Joana não conhecia puto na terreola. Quer dizer, não conhecia até à primeira sessão de musicol-férias-de-Verão na ínclita e vetusta Fanfarra.

E foi assim que este vosso escriba, depois do episódio traumatizante da miúda das calças de ganga elástica, se encontrou face a face com a Madonna de Odivelas, uma miúda igualmente de 15 anos, verdadeira morena escanzelada, toda vestida de tule ou de chiffon ou lá o que raio era aquilo (preciso mesmo de uma modista aqui na cabine de som), aborrecida de morte perante o espectáculo de uma prima aos meles com o meu melhor amigo e a pensar certamente para consigo:

- "que raio faço eu aqui e que raio hei-de eu fazer para ocupar o resto da noite? E se eu beijasse este tipo que para aqui está sozinho?"




9.1.09

M is for my first mohawk (part II of II)


- "que raio faço eu aqui e que raio hei-de eu fazer para ocupar o resto da noite? E se eu beijasse este tipo que para aqui está sozinho?"


Na Escola do Paraíso, há um capítulo em que o Gabriel foge à mãe - que fazia sala às senhoras monárquicas que comentavam o recente regicídio - e se embrenha por uma porta escura, que dá para um quarto escuro.

Lá dentro, por entre brocados igualmente escuros e tafetás pesados, o coração acelera-se-lhe dentro do peito. Pressente, mais do que sente, a presença da Léah. Mas ela está efectivamente lá, não é preciso pressenti-la, basta ver, assim que os olhos se habituarem ao escuro, e ela olha-o e suspira, sussurra,

queres ver um segredo?,

e o Gabriel não diz nada, ao Gabriel acelera-se-lhe ainda mais o coração, sufoca, crê sufocar, sabe que é proibido, é proibidíssimo, mas quer ver, e o quarto é escuro, está escuro, e a Léah mexe-se, restolham tecidos, crepitam crepes, tules, tafetás, queres ver um segredo, é escuro, está escuro, a angústia aperta-lhe o peito, ela encosta-se-lhe, toma-lhe a mão, o coração cavalga, explode, isto sou eu que descrevo o livro tal como o recordo (e recordo-o mal), não sou o José Rodrigues Miguéis, façam-me vocês o favor de ir a correr ler A Escola do Paraíso e depois me dirão como é, afinal.

Eu li-o quando tinha 10 anos e não me lembro já se a miúda se chamava ou não Léah, ou se a confundo agora com a Léah das outras histórias. Sei apenas que, naquela altura, ainda não tinham decorrido os anos suficientes para que se apagasse o Gabriel que então ficou a morar dentro do meu peito, adormecido, enquanto esperava pela sua Léah. E agora, agora que a Joana deita a sua cabeça no meu corpo, agora que a festa acabou, agora que a Sagres entornada fermenta já pelo chão, agora que são 4 da manhã e a Cristina beija o João, agora o Gabriel que há em mim acorda e afaga, a medo, os tules e os tafetás que estão ali mesmo à mão.

Mas a minha Léah é uma Léah mortiça. Não é a Léah do livro, afoita, matreira, dominadora. Esta é uma Léah lassa. Passiva. É uma Léah desarticulada, esta que me beija agora, como se fosse um passarinho.

Foda-se, digo eu agora, muitos anos depois, foda-se!, odeio mulheres que me beijam como se fossem passarinhos, um rufar de penas aqui, uma comissura labial esticada para vante acolá, um beijo-esgar, um ricto de passagem, uma coisa mole, sem paixão, sem desejo, sem vontade, sem tesão. Uma mulher que beija ornitologicamente é como aqueles gajos a quem apertamos a mão – dá um aperto de mão à homem, pá! dizia o meu pai – a quem apertamos a mão, dizia eu, e de quem esperamos que nos apertem a nossa mão de volta, há homem ou não há homem aí desse lado, pá, é como na tropa, pá, 25 de Abril sempre, mama sume e essas merdas todas e os gajos, cabrões, paneleirotes, a deixarem a mão deles dentro da nossa, mole, húmida, como se fosse um peixe morto, e um gajo com nojo a abanar aquele corpo morto no ar, para cima e para baixo, uma mão morta e suada dentro da nossa, que nojo.

Mas voltemos à nossa Joana e constatemos que é ela que me beija, ela, à passarinho, por desfastio (mas beija-me, grande porra, que sorte). E eu, para não dar azar, beijo-a de volta, a língua a recordar a da Sandra das calças de ganga elástica, mas a matéria não é a mesma, olá, as gajas reagem de maneira diferente, querem, fazem, de maneira diferente, primeira lição da noite, cada um é como cada qual e eu aprendo bem a lição e sigo as pistas que ela me dá mas ela não dá pistas algumas, fica ali, exangue, inerte, nem sequer tem a desculpa da cerveja, não bebeu gota que se visse, é dela, é um corpo morto ainda quente mas já amortalhado em crepes e tules, mas é quente a nuca dela no meu peito e eu beijo-lhe os lábios mas eis que a boca não se abre como a da Sandra, é miúda de alibábá diferente esta Joana que me calhou na rifa.

E está escuro, e já se foram todos embora, e era suposto estarmos a arrumar os vinis, e as portas estão no trinco, mas para o João e para a Cristina, oblivious to the world outside, os vinis são, certamente, a última das prioridades. Para mim também, que decido explorar esta Madonna sem menino que me caiu no regaço.

Lanço então dedos batedores a sondar caminhos insondáveis, o mindinho é o Diogo Cão, este a seguir é o Bartolomeu Dias, ao maior chamemos-lhe Vasco da Gama, o fura bolos brasileiro é o Pedro Álvares Cabral, o polegar fica Colombo, só para chatear os espanhóis, diz olá aos meus marinheiros, Joana, deixa-os prosseguir tranquilos na sua singradura, vão de vela enfunada os meus meninos, está calmo o mar, abertos os olhos para o horizonte sem fim, escolho criteriosamente a rota, invoco bravuras nacionais de antanho – Azamor, Aljubarrota, os dois cercos a Diu, La Lys – para a investida final, base um já está, base dois dispenso, vamos directos à base três, sem mais delongas, que a curiosidade e a tesão assim o ditam.

Hélas, se a fraca orografia do terreno ajuda à progressão, os tules, pelo contrário, só atrapalham. E, se perco minutos preciosos a superar esse obstáculo das Tormentas, constato afinal que aquele aparente berbicacho é afinal promontório da Boa Esperança: no afã de desmontar, desatar e desenlear as fitas, cabos e correias que me empachavam o caminho, conseguira abrir caminho directo até ao que mais me importava agora, no mundo e suas galáxias limítrofes. Terra à vista!, gritam excitados os meus marinheiros.

Sem as malditas calças de ganga da outra, sem a saia do vestido, dela, sem nada a não ser uma fina e fungível película de algodão a colocar-se entre mim e a minha Índia privativa, o tempo parou de escorrer naquele preciso momento. E, quando finalmente reatou o seu fluir e o Gama conseguiu desviar o algodão e molhou por fim os pés no Mandovi, eu juro, juro!, que saíram trombetas dos balcões a gargantear e que um coro gospel cantou um Aleluia! Aleluia! bem sonoro à minha frente.

Transfixo, segui então com os olhos o meu braço, depois o antebraço, o punho e finalmente os dedos. Ao lusco-fusco das luzes da rua, liberta da prisão de algodão que até então a encerrara, uma crista negra, espetada, a lembrar moicanos do Oeste selvagem ou punks de uma qualquer rua londrina, elevava-se agora por sobre a carne branca e pálida. Fascinado, tirei o Vasco do Mandovi e dispus-me a experimentar as qualidades mecânicas da crista - afinal, um homem que é homem tem que saber lidar com as suas prioridades e aquela crista era, definitivamente, a minha prioridade número um naquela altura.


P is for photo opportunity


Por oportuna e útil sugestão de uma leitora amiga, e igualmente no seguimento destoutro texto, este vosso escriba declara aberta uma nova secção neste vosso cantinho ajardinado, onde a leitura é aprazível e onde nunca, mas nunca, se emitem juízos de valor.

Esta nóvel secção - que passarei a denominar As minhas mamas dão um post no Dicionário do Diabo - dará às leitoras interessadas oportunidade em ver comentados e dissecados ao pormenor os mais variados aspectos do respectivo peito.

O seu namorado acha que a sua epiderme tem sardas a mais? O seu marido considera que as estrias que o seu terceiro filho lhe legou são inestéticas e que importa gastar uma pipa de massa em botoína? A sua melhor amiga acha que as suas mamas estão mais perto da linha de cintura do que da linha das omoplatas?

Envie o quanto antes uma foto de busto para o email dicionario.diabo@gmail.com e desfaça todas as suas dúvidas. Garantimos rapidez, publicidade, franqueza e isenção.

8.1.09

D is for defrauding expectations


Já dizia o poeta que the best-laid schemes o' mice an 'men gang aft agley.

E é verdade: estava cá eu, tranquilo no meu canto, a congeminar um belo pedaço de prosa sobre a noite em que este vosso escriba beijou a Madonna, quando eis que chega à caixa do correio uma pequena mensagem de leitora amiga, pedindo opinião sobre um tópico relacionado com o que aqui abaixo se falou, em texto anterior. Estando dotado este blogue de um activo Departamento de Apoio ao Leitor, imperativo se tornou abandonar tudo o que tinha entre mãos e dar seguimento expedito ao pertinente pedido, que podeis ler de imediato:

"Meu querido homem a arder"

- isto do meu querido sou eu a inventar, não liguem, é apenas liberdade poética para introduzir a substância do assunto;

"já li o Tits & Ass e acho que se fosse homem pensaria exactamente assim. Falta opinares sobre maminhas e rabos silicónicos. Tenho uma prima que foi a Cuba e veio de lá com duas tijelas redondinhas e muito duras no lugar das maminhas ligeiramente descaídas que antes apresentava. Não gostei da sensação daquilo ao toque, mas também que sei eu, não sou gajo..."

Ora, introduzida que está a substância, a mesma suscita-me vários comentários. E o primeiro, em forma de questão retórica, é este: que sabe você, cara leitora, de mamas?

Sabe, certamente, das suas, como eu sei das minhas. Mas das outras? Que pensa você, quando vê mamalhal alheio? Não avaliará certamente o seu potencial lactífero nem dirá para consigo eh pá, granda par de mamas! Pois, é, não leve isto a peito, mas há que deixar aos profissionais cuidar daquilo que extravasa as competências do mero amador. Fez, portanto, muito bem em encaminhar essa dúvida para um técnico qualificado.

Dito isto, e não sendo curial pedir à sua prima que venha até mim e que avance ao reconhecimento, terei que falar de cor e confessar que nunca às mãos me veio ter mama adulterada. E ainda bem. Porque eu, perante tal hodierna praga, digo muito assertivamente: não só estou contra, como acho igualmente que usar silicone para enganar os incautos observadores configura, na minha óptica, crime de burla que deveria ser severamente punido de acordo com a legislação penal em vigor.

Vejamos um caso em concreto, que poderá ilustrar melhor este meu ponto de vista, que admito polémico: imagine a leitora que vai lado a lado com a sua prima, ao longo do paredão que se espraia do Estoril até Cascais, num passeio bucólico à beira-mar, você com as suas maminhas singelamente descaíndo com a gravidade, de forma honesta e genuína; e a sua prima, com as suas tijelinhas muito redondinhas e muito duras, mas tão falsas como porcelana da Arrentela.

Imagine igualmente que, num golpe de sorte, existe por sobre o paredão um ajuntamento de trabalhadores ferroviários, ocupados a meter e a tirar as mãos dos bolsos, enquanto observam o mulherio lá embaixo. Ora, toda a gente sabe que um ajuntamento do proletariado é ocasião soberana para a elevação da auto-estima feminina - está provado cientificamente que piropos do tipo:

- "ó boazona, fazia-te uma cuequinha de cuspo"

ou mesmo o já um pouco estafado:

"eh carapau! vim agora da pesca, vai um linguado?"

são equivalentes, em termos de bem estar feminino, a 30 dias de body combat e máquinas num daqueles ginásios só para gajas ou a um tratamento de luxo, com seixos do rio aquecidos, chocolate fundente e tudo aquilo a que têm direito, no Spa do Ritz. Agora visualize você que, engodados astuciosamente pelo silicone, os ferroviários ignoram completamente a sua presença e mimoseiam apenas a sua prima com as suas sonoras e lisonjeiras expletivas.

Como é que acha que eles se sentiriam, se soubessem que tinham sido defraudados nas suas estimativas, nas suas apreciações, nos seus comentários? Imagine que um outro grupo de ferroviários - de Santa Comba Dão, por exemplo, ou do Tramagal - vinha a saber que a malta da Linha de Cascais tinha assobiado aprovadoramente a uma mama plastificada, totalmente hecha en el Malecón? Consegue imaginar os dichotes, a humilhação, a vergonha, os danos irreparáveis na psique da ferroviada toda?

E você, cara leitora, veja o caso pelo seu prisma: como é que se sentiria? Na merda, não era? Pois é, antevejo aqui grandes perdas patrimoniais: somas avultadas gastas em sessões de terapia (quiçá de grupo), em aviamentos na farmácia de quantidades industriais de anti-depressivos (talvez até Viagra para a companha da CP)... ou seja, mutatis mutandis, é como lhe digo, há aqui burla e da grossa, o característico duplo nexo causal mais do que evidente, com o engano silicónico a criar uma representação distorcida e desfocada da realidade, a ser a causa da situação de erro em que se encontram as vítimas do logro e, simultaneamente, esse estado de erro a ser a causa dos danos sofridos pelos enganados (especialmente por você, leitora, espoliada que foi do gozo do seu mais que justo direito a ser alvo dos piropos aleivosamente desviados para a postiçona da sua prima).

Segundo comentário, corolário do primeiro: pior do que a praga do silicone, é o flagelo do soutien almofadado.

E porquê? Porque tratando-se de tecnologia low-tech, barata, ao alcance de qualquer utente-tábua-lisa da Bershka ou da Zara, o soutien acolchoado engana o mais previdente. I kid you not, eu próprio - que tenho melhor olho para avaliar em termos de copa o mamalhal encoberto que um cigano da raia tem para detectar um cavalo fraco de curvilhões - caí no logro várias vezes. É que um tipo avança todo afoito a pensar que tem entre mãos bife do lombo e descobre, com surpresa, que lhe calhou na rifa uma embalagem de frango para fricassé do Pingo Doce - aquilo parece que é tudo carnonga mas, quando se abre a embalagem e se vira a peça de carne ao contrário, é só pele e osso.

Reparem: eu não me queixo pelo facto da mama ser pequena - devo dizer que já vi mamas pequeninas bem mais excitantes que muita mama bojuda e nutrida, especialmente quando deixadas à solta, em bamboleante e hipnótico movimento por sob uma t-shirt desafogada. O que me exaspera é o dolo com que agem estas mulheres de má fé, que não são capazes de assumir com orgulho o peitoral com que adolesceram, por pouco que seja - afinal, quem é que se pode fiar numa tipa que não consegue confiar no próprio peito?

Finalmente, um terceiro comentário, que não tem nada a ver com o assunto mas que revela, à sagacidade, as diferenças abissais que há entre homens e mulheres. A leitora escreve, na primeira pessoa, que não gostou "da sensação daquilo ao toque mas também que sei eu, não sou gajo...".

Pois é claro que não é gajo! Você está a ver algum gajo heterossexual a receber o seu primo de volta de Cuba, a ouvi-lo dizer:

- "Estou tão contente, lembras-te daquela pila descaída e curta que eu tinha? Pois olha, vê lá tu, fui à faca lá em Cuba, distribuí umas canetas e uns sabonetes pelos médicos e, não só me curaram da pubalgia que fiz a jogar futebol no clube dos Ferroviários, como também me acrescentaram mais 4 centímetros, aqui, logo abaixo da glande, nem se vê a costura. Queres tocar para ver a diferença?"

e a meter lá a mão para saber qual é que é a sensação que aquilo dá ao toque?

Pois, é claro que não está a ver, exactamente pelas mesmas razões que não está a ver homens hetero a irem aos pares à casa de banho (sim, eu sei que vocês só o fazem para ir conversar) nem a comentar entre si, por entre uma bica e um duchaise, os detalhes das fodas que dão com as namoradas. Mundos diferentes, é como lhe digo, cara leitora, e ainda bem.

E disponha sempre deste seu humilde criado.


B is for brainstorming, help.


Tendo havido alguma queixas quanto à justeza do meu anterior pseudónimo - para os mais esquecidos, relembro que era Burning Man, em homenagem a uma festa muito louca, muito sixties, cheia de mamalhudas desnudas tatuadas até ao cocoruto e barrigudos fugidos de um video do Willie Nelson, a que uma vez fui por engano no Nevada (vejam, vejam, o quão viajado e blasé é este vosso criado) - estou neste momento indeciso entre apelidar-me Homem em Fase de Rescaldo (o actual), Burned Man ou Chevalier Ardent - estes dois últimos sugeridos pela Catarina.

Como estou absolutamente falho de ideias, solicito a vocês, poucos mas bons leitores, ajuda para este dilema que me preocupa (não muito, só um bocadinho, vá): como é que raio eu me hei-de chamar no meu perfil?

7.1.09

T is for T & A

A T&A man.

É assim que, com este acrónimo, os americanos descrevem aquela classe de homens que, de uma mulher, apenas consegue apreciar as tits e o ass. Deixando as caganças de lado, só têm olhos para o cu e para as mamas.

E eu? Que penso eu sobre a questão? Analisemos em primeiro lugar a problemática das mamas , aduzindo os vários argumentos em campo e que forçoso se torna trazer à colação.

Ultrapassada que foi a travessia no deserto da Idade da Adolescência (Antiga, Plena e Tardia) e da Idade Adulta Antiga, posso afirmar com alguma segurança que me terão passado pelos dedos (sempre), boca (a maior parte das vezes) e uma ou outra mucosa (a pedido) uma boa centena de pares de mamas. De tudo vi e senti em termos de forma e volume, lisas ou estriadas, flácidas ou entumescidas, periformes ou globulares, gigantones ou género-ovo estrelado, tudo sempre acompanhado pelo mamilame o mais variegado que imaginar se possa, desde o estrábico (com um bico a apontar para o céu e outro a mirar a superfície terrestre) ao tão empertigado como a lapela de um oficial nazi, passando, é claro, pelos invertidos, os quebrados, os retorcidos, os ausentes ou os dotados de tricomas mais ou menos oxigenados, com o ramalhete a ser composto pelo grau de desigualdade das mamas, por vezes o factor estético mais chocante de se contemplar, com uma das ditas a parecer que está ali mais transplantada ou exertada do que naturalmente implantada, de tanto nada ter a ver com a sua outra mana.

Uma mama é uma mama, ponto. Excepção feita às que são realmente perfeitas e que falam com arte encantatória ao ouvido interior do esteta que dorme dentro deste vosso criado (coisa que, a acontecer, dá mesmo logo vontade de um gajo se tornar pintor ou fotógrafo) uma mama numa tipa já desnuda não é coisa que me desperte a líbido por aí além - é claro que, à falta de melhor e não havendo tipa descascada e au naturel, uma ou duas mamas servem perfeitamente como hors d'oeuvre e amuse bouche antes que cheguemos ao prato principal. O que nos leva ao tópico cu.

Há que evitar a tentação de achar que um cu bem feito é sempre tentador - não porque simplesmente seja um cu bem feito mas sim pela promessa que o seu torneado e o seu tónus encerram de, no volte-face, haver cona à altura.

Pura falácia: diz-me a experiência que a correlação entre a forma de um cu e o pedigree conal é independente e não relacionável. Por exemplo, imaginemos que temos à mão de semear uma senhora que arvora um cu similar ao da Keyra Agustina: um tipo vê-a de costas, saliva de expectativa, vira-a a 180º e vem a descobrir, com grande e sentida desilusão, que tudo era afinal much ado about nothing e que o cu nada tinha a ver com as calças.

Mamas e cu, pois sim. Eu cá, eu confesso que não sou um homem T & A. De todo. Eu sou mesmo é um C man. Sempre fui e sempre o hei-de ser. É que, sinceramente... porque é que raio estas três acumulações de células gordas - geneticamente implantadas no nosso bolbo raquidiano por essas urgências chamadas evolução e instinto de preservação da espécie - me haveriam de fazer fremir de gozo, mesmo quando nada conhecia sobre o deve e haver dos rituais de acasalamento?

Afinal, nunca procurei conscientemente mulher de quadril largo capaz de parir sem rebuço ou obstáculo intransponível no meio da selva enquanto eu, bonus pater familias, andava à caça ou flanava pela savana em actividade de recolecção, nem alguma vez seleccionei alguém que encerrasse em si o potencial lactífero de me amamentar a basta prole com proteico e abundante leite materno, segregado de forma cornucópica por duas belas e fartas colónias glandulares mamárias. Raios parta a natureza mais o seu canto de sereia!

C is for cherries topping the cake

Não, Catarina, nem este blog se apaga tão cedo, nem as leitoras se papam nem o Mexia é para aqui chamado.

Este é, afinal, um blogue que se quer grave, sisudo, biográfico, sem imagens de meninas larocas a transpirar saúde ou fotografias de anatomia ginecológica. Isto por aqui é assunto sério, só conduto, texto escorrido e enxuto, memórias de um ex-combatente na refrega dos sexos, não mais do que um mutilado da grande guerra a sofrer de choque pós-traumático e a querer exorcizar os seus fantasmas em ambiente familiar e asséptico.

6.1.09

I is for I forgot this one in the entry below

Eu já fingi orgasmos.

P is for penis envy


Ao contrário do van der Rohe com o seu less is more, todo o homem - especialmente o homem adolescente - levanta os boxers e pensa que queria more naquilo que lhe parece sempre muito less.

É que não é à toa que temos as nossas caixas de correio electrónico inundadas com propostas mais ou menos plausíveis para um aumento peniano - qualquer homem daria um colhão para ter um membro grosso, avantajado e tão comprido como um dia sem pão. Se for género tromba-de-elefante, com uma glande prêensil e tudo, tanto melhor. More is more e que se foda o paneleiro do Mies.

De onde nos vem este nosso trauma com o gigantismo do membro? Bom, em primeiro lugar, e reatando a questão exposta mais abaixo relativa às Ginas e Tanias, a indústria do sexo é uma das grandes culpadas por este estado de coisas. Recorrendo a alguns mandingas especialmente atacados por elefantíase, fazendo-os contracenar com umas louras escanzeladas e inusitadamente secas de carnes, cria-se aqui um verdadeiro cenário de terror para os incautos miúdos que calham em folhear essa recriação de ambiente de quarto doméstico em tons de heart of darkness: comparando na sua mente a pequena e enfezada minhoca que vergonhosamente escondem nas suas partes pudendas versus aquela anafada e coleante anaconda que se introduz a custo na loura carne, transformando a golpes de martelo-pilão o seu inefável mons venus em puro bife tártaro, qualquer puto branco e suburbano recorre sem apelo nem agravo às suas poupanças e escreve na volta do correio a um desses endereços de ajuda prostética.

Pior ainda é quando o engano se torna mais refinado, utilizando-se no lugar dos mandingas uns espécimes caucasianos afectados pelas radiações de Chernobyl, com membros do tamanho e envergadura de um míssil de cruzeiro ou de uma colunata jónica. Um desses mitos da minha adolescência, responsável por uma enorme quantidade de adolescentes suicidários, era John Holmes, artista menor das nossas tardes em betamax, vistas à sorrelfa ora em casa de um, ora em casa de outro, emudecidos perante tanto tecido eréctil, manietados por tanto centímetro em excesso, esmagados pelo nosso acabrunhante e pessoalmente humilhante déficit em carne e cartilagem.

Sim, haverão de passar muitos e muitos anos até que constatemos que os fenómenos penianos são isso mesmo - fenómenos, aberrações, anomalias genéticas. Contudo, por mais anos que passem e por mais que racionalizemos a questão, a inveja e o desejo do more is more não hão-de passar nunca. E, se as ouvimos a dizer as coisas mais simpáticas do mundo:

- "credo, não é nada pequeno!"

(ou a minha preferida, porque surge espontânea e não solicitada:

- "não entres tanto, que me magoas", deixa perante a qual um tipo se esmera para manter de fora os tais dois centímetros que estão more or less a mais, preocupado que está em não lhe rasgar o colo do útero)

também as ouvimos dizer autênticas barbaridades. Uma dessas barbaridades grandiloquentes, tão castrantes quanto uma tesoura de capar gatos, consiste na fatal:

- "é mesmo o meu tamanho ideal, grande mas não grande demais porque depois fazia-me doer",

fatal porque um tipo começa logo a magicar coisas, como é que ela sabe que a faria doer, será que já comeu algum mastuço africano, e do pensar passa logo ao palavrar:

- "olha lá, tu já namoraste com algum mandinga?",

o membro, até então impante, a recolher-se na sua concha marfinada para fins de hibernação prolongada, as coisas fatalmente a nunca mais serem as mesmas, o fantasma afro a pairar entre os dois como se fosse o ghost of Christmas past. E depois, claro, depois há as histriónicas, as que assim que lhe pegam, ainda meio adormecido e comatoso, gritam logo:

- "ai, é tão grande, nunca tal vi! não vai caber, não vai caber!"

ou aquelas que esperam pelo vai-ou-racha para se desfazer em vagidos e gritar aqui d'el rey que me estão a rachar ao meio.

Seja como for, para o adolescente que eu fui não houve período mais angustiante do que aquele que se seguiu à descoberta do outro uso que podia dar à pila, aí por volta dos meus oito anos. É que foi a partir daí que fiquei a saber que não me bastava ter uma uretra. Era igualmente preciso que essa uretra tivesse por detrás um pénis comprido e grosso.

Felizmente, ao contrário das miúdas, que não podiam esconder as mamas umas das outras (ou melhor, que não podiam deixar de mostrar as mamas que não tinham), a um miúdo como eu, na altura, aconteciam apenas 3 ocasiões em que teria que mostrar o que valia: nos balneários da escola, perante uma namorada (caso deveras improvável) ou, horror dos horrores, durante uma amostra.

Uma amostra era um evento absolutamente cruel e aleatório - certamente proibidérrimo pela Convenção de Genebra - espoletado invariavelmente por um qualquer miúdo que, de repente e vindo do nada, te agarrasse pelas costas e gritasse para quem passava: "AMOSTRA!!"

Imediatamente te encontrarias cercado por outros miúdos que te manietariam, te imobilizariam e uniriam esforços para, em uníssono, te despirem as calças e as cuecas e te deixarem em pêlo da cintura para baixo, fosse onde fosse. E era esse detalhe que tornava tudo aterrorizante - é que esse fosse onde fosse era geralmente na cantina ou no pátio defronte da entrada da escola, locais que, como toda a gente sabe, estão cheios de miúdas.

Tendo assistido a várias amostras que emascularam para todo o sempre amigos meus, miúdos que se tornaram autênticos farrapos humanos depois de terem transitado em agonia pela experiência, posso confessar que passei pelos últimos anos da primária e por todo o ciclo preparatório num autêntico terror de sofrer o mesmo. Embora tenha tomado as minhas precauções - usar um cinto difícil de desapertar, utilizar sempre calças com botões na braguilha, vestir sempre cuecas em bom estado, de preferência pouco pirosas, etc. - felizmente nunca tive que experimentar a sua eficácia.

Escapei à humilhação mas não ao temor. Foi preciso esperar pela minha entrada na Marinha para perder o medo à comparação. Foi lá, nos balneários que éramos obrigados a utilizar nus em pêlo, que perdi a vergonha de mostrar as vergonhas de vez e descobri que - pelo menos em estado de flacidez - não era nem mais nem menos do que a maioria. Era normal.

Em todo o caso, ainda hoje não me atrevo a usar sunga na praia. Só calções. E dos largueirões.

5.1.09

A is for already (reloaded)


Emulando uma das nossas calotes terrestres bipolares e dando uma antevisão do que por aqui ainda se irá descrever em pormenor:

Eu já tive mais prazer a masturbar-me do que a ter (algum) sexo.

Eu já fui de propósito a Madrid foder uma chilena durante uma semana.

Eu já comi três brasileiras e nunca fui ao Brasil.

Eu já dormi com 6 mulheres casadas (e fiquei fã).

Eu já recebi um telefonema de um marido a suplicar-me para não me meter na relação do casal (e a culpa não era minha).

Eu já fodi uma fulana no seu apartamento do 8º andar, com todas as janelas panorâmicas escancaradas, durante a tarde, em plena vista de um prédio em construção, cheio de trolhas e pedreiros (eles gostaram e nós também).

Eu já fui assediado por um polícia francês, do serviço da Guarda Presidencial do Eliseu, que me pôs a mão na perna e me quis comer (e estava armado e estávamos apenas os dois, no carro dele, numa autoestrada).

Eu já fui entrevistado pelo Público, pelo DN, pela SIC, pela RTP1, pelo Carlos Pinto Coelho do Acontece, pelo Expresso, pela Visão, pela Rádio Comercial, pela TSF e por várias outras revistas nacionais e internacionais.

Eu já fodi uma jornalista da RTP2, outra da TVI, uma do Expresso e outra da Sábado.

Eu já me vim 12 vezes num só dia e com a mesma mulher (tinha 20 anos e era tudo novidade).

Eu já me vim num cinema, a ver o Ultimato de Bourne (mas não estava a ver o filme).

Eu já fodi debruçado de uma janela de um hotel virado para o Marquês de Pombal.

Eu já tive sexo oral em pleno Parque Eduardo Sétimo, numa tarde de Domingo, em plena Feira do Livro, cercado de pessoas por todos os lados (e acho que ninguém deu por isso).

Eu já fiz sexo virtual e por telefone.

Eu já dormi várias vezes com três virgens, namorei até com uma, mas nunca desvirginei alguém.

Eu já tive que bater numa mulher porque ela me o pediu (e eu não gostei).

Eu já tive que dar uma estalada numa mulher para que ela me deixasse em paz e caísse em si, eventualmente vendo a figura patética em que estava a incorrer (e não resultou).

Eu já enrabei uma oficial altamente graduada da PSP, quando fardada (e gostei).

Eu já fodi uma completa estranha uma única vez (e não achei muita piada).

Eu já comi uma mulher de 58 anos quando tinha 30 (e gostei muito).

Eu já conheci no sentido biblíco uma francesa, solista numa grande orquestra portuguesa (e não gostei: não só estava rapada, como estava mal rapada).

Eu já me masturbei amiúde a ler o Saramago.

Eu já fodi uma mulher que tinha certamente mais de 120 quilos e outra que tinha certamente menos de 45.

Eu já tive duas namoradas e duas amantes (simultaneamente).

Eu já estive com quatro mulheres diferentes num só dia (sequencialmente).

Eu já estive com duas mulheres ao mesmo tempo (e não gostei muito).

Eu já fui violado por uma mulher quando estava praticamente em coma alcoólico (não é que me lembre - contaram-me).


D is for disclaimer


Para que conste, Sofia, em termos de orientação política, eu sou mais de esquerda do que de centro-direita. Embora confesse que, em termos de ângulo de projecção e inclinação de uma certa parte da minha anatomia (relevante para este blogue), tenhas acertado na mouche.

B is for broads in magazines



Creio que foi o autor do Insustentável Leveza do Ser - um desses livros pastelosos que se lêem obrigatoriamente na adolescência, juntamente com os Ismail Kadare e os Nabokov deste mundo - que descreveu a obsessão da sua personagem principal pelo sexo como a busca do insólito, do individualmente diferente, das idiossincracias de cada uma das suas amantes, do localização do pequeno pormenor que tornava aquela mulher diferente de todas as outras, idiossincracias essas que eram, no fundo, o motor de arranque da sua líbido.

Identifico-me perfeitamente com esta definição. Aliás, sou totalmente a favor das idiossincracias e totalmente contra a padronização. A pornografia videográfica industrial, por exemplo, deixa-me indiferente. Observar um filme onde pululam mulheres siliconadas e rapadas em todo o lado e mais algum, arquétipos de puta recauchutada, tipos atléticos de rabo de cavalo a armar ao chulo barato, com pilas abastadas e retorcidas em forma de zingarelho ou de cabide pós-moderno, guiões estafados de tanta falta de originalidade - ela chupa-o, ele lambe-a, ele fode-a(s), ele enraba-a(s), ele vem-se na cara dela(s), the fat lady sings, finita la comedia - deixa-me tão excitado quanto ler o manual de instruções do meu telemóvel.

Já as Ginas e Tanias - histórias sexy internacionais encapadas num extremoso design dos anos 80 e a custar a estrondosa quantia de 190 escudos - da minha juventude tinham igualmente essa pecha: apesar de ter sido com elas que primeiro vi, com detalhe entomológico suficiente, as diferentes anatomias de cada sexo e aquilo que as duas juntas, embebidas ou não umas nas outras, poderiam permitir, em termos de combinações e permutações, também nada faziam por aí além pela minha excitação. Também, quem raio é que se conseguiria vir a olhar para uma sósia da Lady Di, a entortar a boca e a revirar os olhos, escanchada em cima de um tipo igual, igualzinho, a um taxista que havia na praça de táxis de Paço de Arcos e que conduzia um Mercedes praticamente marroquino de tão estafado que estava?

Eu não (já quanto à secção de cartas da edição americana da Penthouse, o caso muda totalmente de figura). Não posso negar, contudo, que, passadas religiosamente de mão em mão, provindas de um irmão magala que as comprara no quiosque de Santa Apolónia a caminho de Santa Margarida ou de Tancos ou de um colega mais velho que as bifara a um pai descuidado, as Ginas e as Tânias fizeram mais pela educação sexual da minha geração do que tudo aquilo que se leccionou nas escolas na disciplina de Saúde ou se transmitiu pelo cinema ou televisão).

4.1.09

P is for parting the waters


Uma coisa tem que ficar clara.

Neste blogue só se falará de quem fodi e de quem me fodeu. Nunca de com quem fiz amor.

3.1.09

A is for anonymity in profanity


Tenho recebido alguns emails que me questionam, basicamente, sobre dois aspectos deste blogue: o anonimato e a sua suposta "pornografia".

Em primeiro lugar, o anonimato. Apesar de ter um outro blogue, público, relativamente conhecido, onde assumo quem sou e onde escrevo para quem me lê, dei por mim a ter vontade de ir mais além, noutro tipo de registo. Não tanto num registo intimista mas mais num registo nu e cru - ou seja, contar publicamente as minhas fantasias, as minhas experiências, as minhas parafilias, os meus desejos, as minhas memórias, as minhas impressões.

Ora, como antevejo que grande parte do que aqui vou contar será mais ou menos chocante ou alarmista - exactamente porque vou ser nu e cru - para a família, amigos, colegas e pessoas mais ou menos próximas, e como sei que muita gente que me poderia ler se reverá nos episódios que aqui irei narrar porque neles foi participante. Está, assim, justificado o meu anonimato.

Quanto à "pornografia", bom, concordo que algum vocábulo ou outro será de um calão um pouco forte demais para ser lido por algumas pessoas - essas terão bom remédio: não voltem cá. De resto, o que vou escrevendo por aqui é exactamente o le mot juste - se há ocasiões em que direi "seio", outras mais, muitas mais, haverá em que direi "mama" (em todo o caso, posso-vos prometer que há vocábulos que aqui não entrarão, exactamente por os considerar ou fortes q.b. ou bimbos demais: queca, crica, esporradela, greta, racha, tetas, mamada, bico, tintins e piça são bons exemplos).

T is for three things that get me horny in public


Há 3 coisas numa mulher que me deixam absolutamente excitado.

A primeira é um púbis largo, duas pernas bem afastadas, encimadas por uma abertura onde caberão à vontade três dedos lado a lado. Avista-se geralmente em mulheres em calça de ganga ou em leggings e não escolhe idade. Essa característica, quando avistada num qualquer lugar público, causa-me a maior perturbação e comoção. Já fodi fulanas, feias e/ou parvas, apenas porque detinham esse pequeno pormenor físico.

A segunda é a nítida protuberância dos dois mamilos por debaixo do tecido da camisola ou da t-shirt. Avistada geralmente em dias frios ou nos corredores dos frescos dos supermercados, este fenómeno não ocorre com todas as mulheres et pour cause, mais excitante se torna a sua visão, especialmente quando em apercebo que a portadora de tal erecção mamilar não traz soutien.

A terceira é um pouco degueulasse e o francês é aqui utilizado de propósito: excita-me entrever os pêlos dos sovacos, quando crescidos de forma natural, através da manga cava das t-shirts ou das camisolas de alcinhas. Se esta presença capilar é, regra geral, normal em mulheres da Europa Setentrional (alemãs, escandinavas e francesas de gema) já a sua presença em mulheres da Europa Meridional é muito rara - o que, mais uma vez, torna o seu avistamento mais excitante. E porque é tal coisa me excita? Porque vê-los, aos pêlos do sovaco, é como que antever o púbis... e isso excita-me para lá de Bagdad.

2.1.09

S is for the soft mushiness of the flesh

Foi só quando ela se veio em cima de mim, tinha eu 14 anos, que descobri que a vida nem sempre era como vinha descrita nos livros.

Se calhar, eu andava com os livros errados. Que eu soubesse, era o único do meu bairro a ler o Ivanhoe e o Oráculo de Jamais - também, que eu soubesse, era o único a pedir esse tipo de "livralhada" ao condutor daquelas carrinhas que parecia que vendiam peixe e que passavam afinal por ser bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Todos os demais putos da zona, ou ocupavam o tempo a ler a Bola ou então não liam, pura e simplesmente.

Enfim, retornando à história. A Sandra era uma daquelas miúdas igual a tantas outras. Meio arruivada, meio loura, sardenta, nem magra nem gorda, era uma miúda normal, da mesma idade que eu. E aposto que não lia o Ivanhoe. Aliás, aposto até que não leria mais do que a Bravo ou a Maria ou que é que raio leriam as miúdas daquela altura. Resumindo, a Sandra era uma daquelas miúdas em que não se repara, nem gira o suficiente para ser comentada pela rapaziada, nem feia demais para andar nas línguas maldosas das outras miúdas.

Seja como for, a Sandra - a quem eu nunca olhei com primeiras ou segundas intenções, ocupado demais que andava em suspirar à conta de amores platónicos que tinham a duração invariável de um ano lectivo, sempre com as miúdas mais populares da turma como objecto - um dia deu-me a mão, num dos passeios de turma do 9º ano, depois de ter ficado estrategicamente para trás.

Ora, eu que nunca olhara com primeiras ou segundas intenções para a Sandra, ocupado demais que andava em suspirar à conta dos meus amores platónicos, olhei para o episódio com uma ingenuidade, agora vista à distância destes anos e desta experiência toda, absolutamente confrangedora. Estaria cansada, estaria anémica, estaria à procura de apoio para o resto do caminho, todas estas razões eram, na minha cabeça, justificação suficiente para o episódio inusitado de ter uma rapariga a dar-me a mão, coincidentemente, uma rapariga que claudicava cada vez mais insistentemente. Juro-vos até que essa ingenuidade custou a dissolver-se, mesmo quando ela parou, me voltou para ela e me beijou na boca.

O meu primeiro beijo, foda-se, e nem o pude gozar como deve ser. Eu, que passara noites e noites a tentar imaginar a que saberia, como seria, que sentiria, quando desse o meu primeiro beijo, fui ludibriado, enganado, vilipendiado. Apanhado na curva, dado à morte, vítima de alta traição, fiquei tão espantado, tão boquiaberto (literalmente forçado a tal por aquela invasiva e inédita língua na minha língua) que este primeiro beijo mais não foi do que um acidente rodoviário, uma coisa que não vi vir e que ainda não sei como raio terminou.

Entre esse beijo, que foi único e a sexta-feira seguinte, decorreram sete dias. Sete dias em que o meu estado de espirito oscilou entre a tesão pura, quando evocava a maciez dos lábios dela e a humidade quente da sua língua, e um terror aflitivo que aumentava a cada dia que passava. E aumentava porque, nessa sexta-feira seguinte, a Sandra queria-me na sua casa. Assim, mesmo

- quero que vás à minha casa na sexta-feira.

E eu, obediente, fui. Era um apartamento qualquer, numa urbanização qualquer, um entre tantos outros. Encontrámo-nos na paragem do autocarro e ela seguiu à frente, e pôs a chave na fechadura da porta do prédio, e subimos as escadas e ela abriu a porta de casa e levou-me, já de mão na mão até ao quarto dela e, claro, a casa estava vazia e o quarto dela era assim uma coisa impossível de móveis da Moviflor, se é que havia já Moviflor nessa altura, e veludos, e cortinados de rendas e coisas que as mães de então punham nos quartos dos filhos como se os filhos fossem avós, e a Sandra nem diz ai nem diz ui, deita-me na cama dela e beija-me e eu beijo-a e passamos, o quê?, duas, três horas, aos beijos, beijos de boca, de língua, só na boca, na cara, vá lá, naquele tempo ainda não sabia que os autores dos manuais sexuais dão listas exaustivas de pontos erógenos, nada disso, eram beijos famintos, dados por um tipo famélico, numa miúda que, contra todas as expectativas, estava ali, de alma e corpo (especialmente de corpo) à minha disposição.

Recordo pouco dessa fúria bocal, desse esgadanhar de dentes e línguas, cada um a emular desajeitadamente (mais eu que ela, que ela já demonstrava bem mais desenvoltura na arte que eu) poses artisticas vistas em filmes e telenovelas brasileiras, ela sempre por cima, a cavalgar-me e eu, porra, eu de calças de ganga, um autêntico erro de casting, porque um tipo que beija assim uma miúda que o beija assim, tem uma erecção de ferro, uma coisa assim a modos que betão armado, uma massa rigida enformada por vigas de aço, inquebráveis e inflexíveis, a bradar estridentemente por uma liberdade vertical, para que pudesse latejar livremente, mas que, aprisionada no denim, enrolada, pressionada e esmagada, mais não fazia do que causar dores lancinantes a quem assim tão despudoradamente a ostentava.

Dividido entre gemer de dor ou de prazer, decidi então deixar de me focar na boca dela e passar a outros territórios virgens. A medo, não fosse levar uma estalada (santa ingenuidade), as minhas mãos foram roçando aqui e ali as elevações gémeas escondidas dentro da camisola largueirona que ela ainda vestia. E digo "ainda" porque ela de repente deixa de me beijar e tira a dita camisola e fica de soutien. Ainda hoje o vejo, um soutien preto, com umas rendinhas a deixar entrever um mamilo rosa.

Um mamilo rosa? Mas não são todos escuros? Aparentemente, não o eram. Assim como, colocadas as minhas mãos em cada um dos seus seios - seios maneirinhos, do tamanho de uma tangerina grande - constatei com admirável surpresa que uma mama não é rija como eu sempre supusera. Aquelas duas maminhas eram moles, muito, muito moles, uma coisa inusitada, de uma moleza como não sentira até então. Apesar disso, ou por isso mesmo, brinco com elas, experimento-as, sinto-as. Ousadia das ousadias, deslizo os dedos por debaixo dos rendados e sinto a pele macia. E ela, cavalgando-me ainda, encaixa o quadril na minha erecção e movimenta-se devagar, para cima e para baixo. Para ser mais concreto, ela esfrega-se em mim. E eu, que me dobro de dores lá embaixo, reviro-a em desespero de causa, deito-a na cama e ficamos assim, de lado, a minha boca na boca dela, a minha mão esquerda na mama dela e a minha direita a caminho do Santo Graal.

Infelizmente, a época era o que era, e a Sandra usava umas calças daquela ganga elástica, uma coisa que espero que o eterno retorno da moda não venha a ressuscitar. E (estupidamente) se lhe desaperto o cinto (uma coisa impossivelmente vermelha, perfeitamente pirosa), falho em lhe conseguir desapertar o botão das jeans. E fico assim, com a mão torcida, garrotada pela ganga elástica, a ponta dos dedos a rastejar impossivelmente devagar até lá abaixo, mas nunca mais há pêlos?, (sim as gajas têm pêlos muito mais abaixo do que nós, eis uma lição dada naquela cama), e nova desilusão (ou, melhor, nova revelação), os pêlos delas podem ser assim, frisados e "grossos" ao tacto e ela não quer esperar mais e tira-me a mão e volta a cavalgar-me e agora não há como fugir, ela passa do trote ao galope e esfrega-se na minha erecção e geme, porra, ela não geme, ela grita, e arfa, e guincha e movimenta-se cada vez mais depressa, e eu esqueço (ou melhor, sublimo) a dor lancinante que sinto lá embaixo, e fico boquiaberto a vê-la, cada vez mais corada, cada vez mais vermelha, cada vez mais arfante, e as gotas de suor escorrem-lhe em cascata do queixo, do nariz e caem na minha cara, e ela está de cabeça perdida, gane agora like a bat straight out of hell, completamente esquecida de mim e eu, boquiaberto, sei intuitivamente que ela se está a vir e penso, isto não é como nos livros, nos livros, elas ficam quietinhas, e suspiram, ruborizam-se um pouco, vá lá, mas aqui não, esta gaja está passada, que é isto?, e ela pára de repente, e depois não me lembro bem como foi, saí pouco depois

- os meus pais estão a chegar, etc.

e a coisa acabou assim, fui a coxear para casa (doeu-me tudo durante uma semana), nunca mais nos falámos (as amigas dela vieram-me dizer que ela chorou e tudo) estúpido que eu fui, que teria certamente, se tivesse persistido, deixado de ser virgem 4 anos antes, mas o choque foi grande demais, a vida não é como nos livros, grande porra essa, quem lhe mandou a ela meter-se com um rato de biblioteca, com um bicho do mato como eu, espero que tenha aprendido essa lição naquela cama, naquela tarde, pobre miúda, pobre miúdo.

31.12.08

V is for voyeurs

Descontadas as fotos a preto e branco que adornavam as últimas páginas da Enciclopédia Sexual para Adolescentes, publicada pelo Círculo de Leitores algures nos primórdios dos anos 80 (se não era esse o título, seria algo parecido), a primeira cona que vi, ao vivo e a cores, foi mais entrevista que vista, um arbusto frondoso vislumbrado à distância por entre os pinheiros mansos de uma praia algarvia da Ria Formosa.

Teria eu uns 11 ou 12 anos e, em rebanho com o resto da família, cumpria a temporada balnear anual da praxe, num parque de campismo onde, ano após ano, lisboetas e portuenses na sua maioria, passeavam as barrigas proeminentes, eles, e as banhas descaídas, elas, arrastando pela mão a filharada encardida, com baldes e ancinhos de plástico nas mãos, queimaduras de segundo grau nas espaldas e cestos de palha com os pimentos, os tomates e o peixe fresco comprado aos pescadores de Cacela, na iminência da grelha que haveria de se seguir.

Um dia, deambulando em expedição aos camaleões pela mata que, recuada às dunas, servia de respaldo ao mar (hoje em dia urbanizada, edificada e betonizada certamente) em companhia de dois amigos de ocasião - colegas de infortúnio e vizinhos de caravana - vimos, num desnivel do terreno abaixo de nós, avançar pelo arvoredo adentro e provinda da praia uma miúda com cerca de 18 ou 20 anos. Olhando em volta, mas não nos vendo, deteve-se junto a uma antiga casa de taipa, em ruínas. Esperou pouco. Minutos depois, junta-se-lhe a ela um tipo entroncado, mais velho, trintão. Não falam nunca um com o outro: ele encosta-a à parede esboroada e despe-lhe acto contínuo a parte de cima do biquini. As mamas saltam-lhe então do pano como se fossem meloas, o bico escuro e a auréola castanha a fazerem assentar nelas oito pares de olhos: os nossos e os do tipo que, sortudo, as manipulava à tripa forra.

Não posso jurar que foi assim que aconteceu, mas acredito que quando as mamas dela surgiram em cena, dos lábios de todos os intervenientes, quer dos activos como dos passivos, um gemido se escapou. Acaçapado na areia, sentia o coração bater descompassado, dividido que estava entre o medo de sermos descobertos como testemunhas do que lá embaixo se desenrolava e a tesão que me descia pelas costas e se reerguia como lâmina de fogo entre as pernas.

Na clareira, de encontro à ruína, o tipo continuava a sopesar-lhe as mamas gordas e pesadas com ambas as mãos. E, se bem as rolava e esfregava com vigor, agora metia-lhe um joelho entre as coxas. Afastando-as, meteu-lhe então uma mão entre-pernas. Ela, de cabeça retesada e olhos fechadas, não tugia. Sem mais delongas, ele baixa-se então e desce-lhe o calção do biquini até aos tornozelos. É então que surge, pujante, em plena luz do dia, o pêlo farto e escuro (ainda não havia a moda do corte 'à brasileira'), que anuncia com a sua aparição o advento fracturante que constitui o avistamento da minha primeira cona, um evento assim como que a modos de um hossana pintelheiramente triunfal.

Desconhecendo o impacto que está a causar a três putos ainda imberbes, o joelho volta a actuar, lesto, e ela fica assim agora, de perna aberta, um corte cor-de-rosa na vertical por entre um mato preto e denso, uma cona real e verdadeiramente autêntica ali exposta para quem a pode ver. E ele, agora, nem se dá ao trabalho de baixar a sua tanga tigrada mas vê-se que a rebaixa, adivinha-se bem aquilo que se prepara para fazer. Idiotamente, da boca de um dos meus companheiros sai a frase mais estúpida que alguma vez ouvi (e que ainda não me saiu da cabeça até hoje, de tão parva que é):

- olhem agora, olhem, o jipe vai entrar na floresta

e é verdade, o gajo espeta-se nela e prega-lhe várias estocadas, é como se se tivesse transmutado num bandarilheiro enlouquecido, a espetar no lombo carnudo e sedoso da choca que lhe oferece serena e placidamente o lombo escancarado ferros de todas as cores e sortes, e resfolega o animal e eu pergunto-me que sentirão eles, que sente ela, a cabeça assim reclinada, os olhos fechados, as mamas a adejar e a bambolear a cada arremetida do animal que a está a comer, a carne das nádegas a esfolar-se certamente na taipa puída, as pernas abertas, a cona que imagino dilatada com a foda que o tipo lhe está a dar e acabam agora, ele resfolega pela última vez e pára, acabaram-se-lhe os ferros, ajeita a tanga, sacode a pila como se tivesse acabado de mijar e sem sequer a beijar vai-se embora por de onde veio.

Ela, sozinha, apanha o biquini, o calção aqui, o soutien ali, encerra as mamas na prisão do têxtil e volta igualmente por de onde veio.

E eu, eu sigo-a ao longe. Vejo-a entrar na praia, caminhar ao longo da orla do mar e deitar-se, como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido, na toalha, junto a um casal (os pais?) e a um miúdo da minha idade (um irmão?). E eu, eu passo para lá e para cá, uma, duas vezes, mesmo junto a ela e olho-a atentamente e penso: será que se vê na cara dela que foi fodida agorinha mesmo? Será que se veria alguma coisa, sei lá, nos olhos, na cara, será que haveria algo que a denunciasse?

E não, não havia nada, nada nela que mostrasse, a quem não tivesse visto - como eu vi - que acabara de ser fodida, que tivera um caralho dentro dela, a vir-se, certamente. Era como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido.

Mas eu vi. E não esqueci.

F is for first readings

Lá em casa, a educação sexual não se dava falada, era lida. Lia-se velhos clássicos da literatura erótica setecentista e oitocentista, polvilhada a escolha, aqui e ali, pelo Miller e a sua trilogia mais famosa. Se aprendi em clássicos como a Fanny Hill a dizer deliquio e ruborescente, com o Miller aprendi que cona era vocábulo que também se escrevia em livros e não apenas em tampos de secretária da escola ou pelas paredes das casas de banho.

Sinal dos tempos, foi com o Miller que aprendi a masturbar-me, nocturna e secretamente, a mão sibilina a mover-se ao ritmo do texto e das fodas dadas pelo protagonista do Sexus, um tipo nihilista que tanto apanhava "esquentamentos na pichota" como enfiava o dedo na cona da Mona por entre as paragens pouco exóticas de uma Paris dos anos 30, nada romântica e muito boémia.

21.12.08

N is for New Year's resolution

Tenho andado a descurar este blog. Por mais que me queira esquecer, a vida real não nos dá muito tempo livre - nem para descansar, nem para por em ordem o passado nem para evocar quem por ele passou.

Acho que chegou a altura de voltar a pegar neste projecto para, sem rebuços, deixar para memória futura episódios que ainda hoje me excitam e me fazem lembrar que estou vivo.

27.4.08

L is for lost virginity

Perdi a virgindade aos 18 anos. Até aí, fui aquilo que se pode chamar um bicho do mato, julgo que nunca tive alguém a quem pudesse chamar com propriedade "namorada".

O primeiro beijo que dei - ou que me deram, inclino-me mais para essa hipótese - foi-me roubado. Os segundos, mais intencionais, foram-me impostos numa confusão de carnes e roupas e noites escuras, um rosto anónimo de uma miúda depressiva, se calhar uma gótica avant la lettre, quem sabe em que tribo a classificar, talvez a das material girls, eu não o sei, uma miúda magrizela, prima da namorada do João que suponho me terá beijado por desfastio ou apenas porque sim, teria eu uns 15 anos.

Até aí (e depois daí) por largos anos, a masturbação era o escape possível, noites e noites a queimar as pestanas à luz da lâmpada incandescente de 20 watts do candeeiro rocócó da mesinha de cabeceira estrategicamente colocado por sob o estrado da cama, a ler o Sexus do Henry Miller ou a Histoire d' O, o sexo retesado e dobrado nas mãos, os dedos exploratórios, por vezes frenéticos, os jactos de esperma cuidadosamente direccionados para não deixarem vestígios em qualquer superfície que pudesse ser escrutinável perante o olhar falconídeo da minha mãe.

Por largos anos, o onanismo. Depois, como que num passe de mágica, como que num rodar do caleidoscópio, a realidade alterou-se. Hoje, contabilizando por alto, acho que terei fodido cerca de 70 mulheres. Brasileiras, holandeses, portuguesas do norte, do sul e das ilhas (madeirenses e açorianas), americanas, guineenses, são-tomenses, angolanas, francesas, espanholas, em todas cravei bandeira. Núbeis ou geriátricas, obesas ou escanzeladas, mais do que mulheres bonitas (que as tive) ou esculturais (que também conquistei), o que nelas mais me fascinou foi sua a variedade: de estilos, de idades, de postura, de mentalidade, de vivência, de aspecto, de morfologia. Advogadas, oficiais das forças de segurança e militarizadas, estudantes, professoras (do básico, liceais e universitárias), consultoras, desempregadas, jornalistas, secretárias, administrativas, artistas plásticas, terapeutas, médicas, é como vos digo: variedade. E, como qualquer homem, sabe, a variedade é o sal da tesão.

D is for dirty words

Um problema se coloca, desde logo: que linguagem utilizar?

A ginecológica, fria e científica, prenhe dos seus latinismos arcaicos, uma langue de bois que ora soletra clitóris, ora sussura vulva?

A familiar, delicodoce e infatilizante, com as suas pilinhas e pipocas, os seus balaus e as suas rachinhas?

A pseudo-literata com os seus amores manufacturados e os seus beijos timoratos ou ardentes?

Não me parece.... a única linguagem que o sexo admite, que a natureza da coisa permite, é a linguagem pura e dura do povo, o soar rispído da coisa tal como ela é, boçal e tasqueira, o baixo latim proscrito pela Igreja e pelos bons costumes, por todos conhecido e por muitos falado. A oralidade transcrita, em boa letra de forma e que se fodam os falsos pruridos.

I is for introitus

Quase quatro anos depois, que me traz de novo a este blogue?

A verdade. Uma verdade necessariamente anónima mas uma verdade que se quer revelada, não porque haja qualquer premência na sua revelação, mas sim porque um certo exibicionismo e uma eloquência que ferve cá dentro assim me obrigam.

Poderia falar de muitos assuntos, este blogue. De motociclismo, de política, de banalidades e trivialidades. Mas não. O assunto será só um: sexo. O meu, o dos outros, o do meu no dos outros. A verdade do sexo, digamos assim. Banal e trivial, ela também.

10.6.04

C is for chit chat

Onde se fala de tudo e nada. Onde a matéria dos sentidos se consubstancia em pixeis - que formam traços, que formam caracteres, que formam palavras concretas, com o fim único de serem lidas e interpretadas de acordo com a moral, a consciência, o sentido de humor e a inteligência de cada um.

Onde o registo intimista se expõe, hesitando entre a exposição pública de vícios privados e o recato devido a incidentes que se querem acobertados sob o espesso manto do esquecimento.

Onde a individualidade se confunde com a identidade societária. Onde, numa perspectiva damattiana, o velho sátiro e o desiludido amante vêm à boca de cena rasgar as vestes e carpir-se, numa catarse absolutamente desnecessária e, frequentemente, idiota.

Onde nada é o que é e nem tudo o que é, é. A cada um a sua interpretação. Afinal, a mim, tanto se me dá como se me deu.